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Quando vocês foram diagnosticadas com nanismo? Como se percebiam quando eram crianças?

Adriana: quando nós nascemos não existia ultrassom: nele seria possível identificar. Quando eu nasci entendeu-se que era um acidente genético, mas aí quando a Mila veio chegaram à conclusão de que todos os filhos do casal seriam anões. Meus pais são primos de primeiro grau. Quando você é criança não se sente muito diferente, só quando chega numa certa idade…

Mila: Na pré-adolescência, com uns 11 anos, quando todo mundo começa a ficar muito mais alto que você, dá um pouco de diferença.

Como se sentiram quando tiveram consciência de que as outras crianças da idade de vocês continuavam crescendo e vocês não?

Mila: Foi bem chato. Porque começa a vir tudo junto, todos os questionamentos: eu não vou crescer, não vou ter namorado, vai ser difícil no trabalho, tudo isso aos 12 anos é uma carga muito forte. Eu tive um período bem conturbado para conseguir me adaptar a mim.frase1

Foram vítimas de bullying na escola?

Mila: A gente cresceu aqui na Granja Viana, que é um bairro pequeno. Então, do pré-primário até a oitava série, era praticamente a mesma turma. Os meus amigos cresceram sem dó da gente, sem protecionismo. Era natural. “A Mila é menor. E daí?”. Eu era e ainda sou muito brava, então se um menino começava a encher minha paciência, eu dava “botinada”. Eu usava aquelas botas ortopédicas horrorosas! Não tinha um menino na minha turma que não tivesse a canela roxa!

 frase2E os relacionamentos amorosos?

Mila: algumas pessoas falam como se fosse uma vitória um anão namorar um não anão. Para mim foi uma vitória namorar com um anão. Foi uma conquista pessoal grande, porque eu não me aceitava. Me permitir namorar com o meu igual foi muito legal. O Ney foi o primeiro.

Adriana: Eu namorei bastante, mas agora estou solteira. Eu namorei uns dois anões.

 Mila: Hoje é mais comum anões namorarem com anões, porque nós rompemos a barreira do preconceito. Normalmente, só tem um anão em cada família. Então quando você vê um anão, uma das reações é não querer se juntar. Mas isso tem mudado bastante.

Adriana: Na verdade, quando junta um grupo de anões eu ainda me sinto meio na dúvida. “Será que eu vou?”. Sinto um pouco de receio. Um anão só se dilui na multidão. Mas vários chamam mais atenção.

Algum cliente já as tratou com discriminação?_MG_4310

Mila: Ainda acontece. Apesar de a gente sempre aparecer na televisão e isso ser bem importante para ajudar as pessoas a aceitarem, ainda há um pouco de resistência.

Adriana: Eu vejo por outro lado, porque algumas pessoas querem ser atendidas por nós, porque somos empresárias e aparecemos na televisão.

Mila: Tem muito também da posição que você, como pessoa com deficiência, assume. Quando eu encontro alguém, eu olho no olho e falo sério, não faço gracinha. Têm anões que fazem graça, como dizer “Eu sou gigante”. Não, você não é. Você é uma pessoa como qualquer outra, mas com um visual diferente. Não tente encobrir o que você é. Seja autêntico e trate a pessoa como você gostaria de ser tratado. Não se faça de vítima. Se alguém vem com preconceito para cima de mim, eu chamo para conversar. É não se sujeitar ao que a sociedade espera de você.

Adriana: Eu discuto um pouco essa posição da Mila, porque ela é muito brava. Se tem uma criança olhando, apontando, não me deixa chateada. Não adianta você brigar com a sociedade inteira só porque estão te olhando ou apontando.

_MG_4333Mila: Não existe mais tempo de compreensão. A criança tem que crescer sabendo que ela não é o rei do mundo. Que as pessoas são diferentes. Tem que saber aceitar. Não há tempo para justificativas. Nós estamos no século 21. A vida está muito adiantada para posicionamentos que a gente tinha no século 16. É um absurdo em pleno século 21 ter gente que acha que cor da pele é diferença. O presidente dos Estados Unidos é negro e você acha que o negro é inferior? Como ele conseguiu chegar lá, então, meu bem? E por que você que é branco não está lá?

Como vocês lidam com comentários “engraçadinhos” sobre a estatura de vocês?

Mila: Respondo com gracinha também. Tento fazer uma sempre pior do que a da pessoa!

Adriana: Eu já tenho outra reação. Saio rapidinho.

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O que vocês pensam sobre a inclusão das mulheres com deficiência na sociedade?

Mila: A gente pega um combo, né? A gente não sabe se estão delegando coisas ruins para nós porque somos mulheres ou porque somos pessoas com deficiência.

Adriana: Uma amiga trabalha na C&A e começaram a delegar os trabalhos mais chatos para ela. E ela reclamou: “Eu tenho deficiência, sou mulher, mas não é por isso que vocês vão me delegar esses trabalhos”, e conseguiu subir na empresa. As dificuldades estão aí, a gente tem que vencê-las.

Mila: Eu não consigo separar se a pessoa está sendo preconceituosa comigo porque eu sou anã ou porque eu sou mulher. Eu fico chateada quando me chamam de “anão”. Eu digo: “O correto é anã”. Eu sou baixinha, tenho as características que eu tenho e sou mulher. Então as coisas se confundem mesmo. Como atriz, por exemplo, quase 90% dos personagens que fiz eram masculinos. Porque as pessoas pensam em um ser, o anão, e colocam no masculino. Não se considera que existem anãs. É como se fosse tudo igual.

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