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Texto em Português

Por Silvana Zajac

Desde 1º de Setembro de 2010 a profissão de Tradutor e Intérprete da Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS foi regulamenta pela Lei Nº 12.319, a qual em seu artigo 6º define as atribuições do tradutor e intérprete, no exercício de suas competências. O parágrafo II deste artigo traz a seguinte atribuição: “interpretar, em Língua Brasileira de Sinais – Língua Portuguesa, as atividades didático-pedagógicas e culturais desenvolvidas nas instituições de ensino nos níveis fundamental, médio e superior, de forma a viabilizar o acesso aos conteúdos curriculares”.

Trago a prerrogativa da lei para apresentar uma competência que é muito pouco discutida nas pesquisas de formação de Tils: a competência didática. Não se trata do fato do Tils assumir funções que são dos professores, pelo contrário, conforme a profa. dra. Ronice Quadros, o professor tem o papel fundamental associado ao ensino. Por outro lado, o Tils é o mediador entre pessoas que não dominam a mesma língua abstendo-se, na medida do possível, de interferir no processo comunicativo e educativo.

Contudo, o fato de grande maioria dos Tils atuarem no âmbito educacional, exige um conhecimento que é da ordem da didática. Ou seja, o Tils precisa conhecer aspectos que se referem à intencionalidade didática do professor para não correr o risco de influenciar diretamente o processo de ensino e aprendizagem.

Assim, precisamos saber que a intencionalidade didática está diretamente ligada ao papel do professor de formar um aluno reflexivo, que vai além da transmissão de conteúdos ou de conceitos e teorias. São estratégias planejadas e utilizadas pelo professor para fazer com que o aluno crie hipóteses sobre um determinado conteúdo, conceito ou teoria e possa refletir sobre elas para refutá-las ou validá-las.

Esse é um processo bastante complexo de ser realizado no ensino e na aprendizagem. E, quando acontece, na maioria das vezes inconscientemente, é alijado pelo Tils no ato da tradução ou da interpretação, fazendo com que o sujeito surdo não tenha a oportunidade de participar desse processo.

Na minha experiência de coordenadora de Tils tive a oportunidade de presenciar vários eventos que ilustram a interferência do Tils no processo de ensino e de aprendizagem. Abaixo, relato um deles:

Em uma aula de Língua Portuguesa, a professora estava fazendo a leitura de uma matéria de jornal e o objetivo era desenvolver nos alunos uma capacidade de leitura, na qual compreendemos o significado de uma palavra pelo contexto.  Uma das frases que a professora retirou do texto foi a seguinte: “A diferença é que somos trabalhadores honestos, já eles são a escória da sociedade.” A intenção era que os alunos identificassem o significado da palavra escória na frase. Quando o Tils foi traduzir a frase imediatamente traduziu o significado da palavra, o que fez com que o surdo não refletisse sobre o problema que intencionalmente a professora estava trazendo.

Diante desse exemplo, podemos perceber que, além das competências linguística, tradutória e referencial, trazidas nas edições anteriores da Revista D+, há uma necessidade urgente de que a formação de Tils considere, também, questões referentes à competência didática.

Nas próximas edições da Revista D+, traremos mais informações sobre as competências inerentes à profissão de tradutor/intérprete de língua de sinais. Caso você tenha dúvidas, perguntas e sugestões para enriquecer esta seção, entre em contato conosco pelo e-mail tilsdmais@gmail.com.

*Silvana Zajac é doutora em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem (LAEL/PUCSP), mestre em Educação (Unimep), bacharel em Letras/Libras (UFSC/Unicamp), e formadora de Tils da Mais Inclusão.

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