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João interessou-se pelos brinquedos.
Dia 5 de abril de 2016 | Por Revista D+ | Sobre Revista

Possibilidades encontradas por uma escola pública brasileira no atendimento a um aluno com TEA no ensino fundamental

 

Reportagem e texto: Claudine Davids

No Brasil, para todos os efeitos legais, a pessoa com Transtorno do Espectro Autista (TEA) é considerada uma pessoa com deficiência, a ser atendida de acordo com a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva de 2008. Vale lembrar que a educação inclusiva insere-se num movimento mundial de defesa dos direitos humanos e não se dirige exclusivamente às pessoas com deficiência. Numa escola inclusiva, todos os alunos, sem discriminação, têm acesso às oportunidades de aprender e conviver, o que não significa que todos construirão os mesmos conhecimentos e chegarão aos mesmos resultados.

A experiência da EMEB Profa. Sylvia Marilena Fantacini Zanetti, no município paulista de São Bernardo do Campo, com o aluno João Vítor Soares Barbosa, que concluiu o primeiro ano do ensino fundamental em 2015, pode ajudar a entender isso. Seu projeto político-pedagógico (PPP) revela o compromisso da escola com o atendimento à diversidade. Nesse sentido, o primeiro ponto é o acolhimento ao aluno: “Foi importante conversar com as crianças antes; dizer que chegaria um amigo com alguns comportamentos diferentes”, lembra a professora da classe comum Vanessa Lima de Oliveira. A mãe também recebeu orientação da escola sobre políticas de apoio à inclusão escolar disponíveis no município.

Segundo a diretora Maria Isabel Maldonado Guimarães, a mãe estava muito apreensiva com o comportamento dele. “Ela se sentia constrangida diante das pessoas e atendia às suas solicitações. Quando ele se jogava no chão e não era atendido, começava a se morder. Nós sempre o impedíamos, até que um dia ele parou”, esclarece Vanessa.

Com relação à participação, a mãe dizia que, na escola anterior, a criança realizava todas as tarefas. Vanessa então lhe pediu o material de lá. Pelos bilhetes das professoras, conseguiu ter uma noção do dia a dia e das atividades, que aparentemente eram propostas para a turma toda. As dele ou eram rabiscos ou mostravam interferência quase que total de um adulto. Assim, planejou o trabalho a ser desenvolvido, explicando-o para a mãe e orientando a auxiliar de classe, sempre no sentido de não realizar as atividades por ele, mas com ele. A professora diz que as crianças se desdobravam para ajudá-lo: “Eu tinha de tomar cuidado para que não fizessem tudo por ele. Isso foi trabalhado com a turma, e hoje uma criança fala para a outra: ´Deixa ele fazer´”.

Segundo Vanessa, João parece divertir-se com os outros alunos e, ao contrário de outras crianças com TEA, aceita o toque. Curioso, está sempre querendo mexer em tudo; ainda usa fralda; não fala. “Quando ele falou ´Pro´, quase explodi de alegria”. Para 2016, tem indicação de consulta com uma fonoaudióloga visando ao incremento de sua comunicação. Atualmente, aponta ou leva a mão da pessoa para pegar o que deseja.

LEVANDO A BRINCADEIRA A SÉRIO

A valorização das especificidades da infância é outro aspecto que chama a atenção no PPP da EMEB Profa. Sylvia Marilena Fantacini Zanetti. É preciso lembrar sempre que o aluno do ensino fundamental também é criança: “Não precisa ficar só sentado escrevendo. Aqui temos a brinquedoteca. Mas a brincadeira acontece em todos os espaços, inclusive no recreio. Em momentos livres e dirigidos. É brincando que a criança aprende. Nós a observamos e buscamos indicativos para a aprendizagem”, ensina a coordenadora pedagógica Rosemeire Maciel.

 João interessou-se pelos brinquedos.  Foto: Nathalia Henrique

João interessou-se pelos brinquedos.

A ida à brinquedoteca pode ser uma boa hora para ensinar que é preciso emprestar o brinquedo ao amigo, além de chamar a atenção para o foco da brincadeira no dia. “Faço questão de pedir que as crianças se sentem na brinquedoteca para retomarmos os combinados já feitos na classe. O João esperneava, gritava. Até o dia em que ele chegou e sentou. Depois, começou a sair do cantinho da cozinha na brinquedoteca, onde gostava de ficar, e vir me buscar para ver outros brinquedos”, relata Vanessa.

Na rotina de sala de aula, a história foi pensada para coincidir com o horário em que João chegava, a fim de que ele sempre participasse. “Foi bom ter avisado às crianças que ele ainda não sabia falar como elas, para que não se assustassem. Eu começava a história, e ele começava a gritar. Daí eu parava um pouquinho, e a gente esperava. Se eu falasse para ele não gritar, aí ele gritava mais. Até que um dia ele olhou para o livro e abriu um sorriso… Passou a vir no meu colo, porque não tinha paciência de esperar para ver as gravuras junto com as outras crianças, e me ajudava a segurar o livro. No final, eu cantava uma música com as crianças sobre a história, e ele tentava imitar os gestos e alguns sons, como o do leão, que o fazia ficar bem eufórico. Isso foi mostrando como ele estava mais participativo e gostando de estar ali. E as crianças deixaram de tratá-lo como bebê”, conta Vanessa.

Quando percebeu que João conseguia compreender a hora da história, a professora priorizou a sua participação na roda de conversa, em que todos contavam o que haviam feito no fim de semana. Conversando com a auxiliar, decidiram retomar um antigo trabalho: o caderno de comunicação (veja a sequência didática adiante). “Quando chegava a vez dele, eu lia o que a mãe havia escrito, e as crianças vibravam ao saber o que ele havia feito realmente. Até que chegou um dia em que ele tinha ido a uma festa na casa da tia. Ele ouviu e bateu palmas. Todos entenderam: ´Ah, foi um aniversário!´ Foi um momento muito rico, em que ele percebeu que podia se fazer entender”.

A avaliação de alunos como João é uma preocupação frequente de pais e professores. A escola deve garantir o acesso às oportunidades de aprendizagem, e o professor precisa registrar as estratégias, objetivos e o desempenho da criança ao longo de todo o processo.  No final do ano, por mais estimulados que sejam, nem todos os alunos estarão identificando e escrevendo seus nomes, por exemplo, mas outras aprendizagens devem ser consideradas. “Em casos como este acreditamos em relatórios com imagens, mostrando os projetos, porque não dá para enquadrar uma criança com tempos e modos diferentes de aprendizagem numa ficha. Uma vez registrado no PPP, esse procedimento é considerado válido”, explica a diretora.

João foi o primeiro aluno com TEA de Vanessa, pedagoga com 16 anos de experiência. Ela já tinha tido outros alunos com deficiência. Porém, cada criança é única, traz desafios diferentes. Segundo ela, foi o próprio João que a ajudou a perder o medo: “Percebi que ele me deixava dar a mão para ele, que prestava atenção em mim quando eu me agachava para conversarmos. Minha visão mudou tanto, que compartilhei minha experiência com a professora atual dele”, diz ela.

Questionada sobre a escola, Jaqueline Aparecida Macedo Soares, mãe de João, não poupou seus elogios. “No começo, eu fiquei com muito medo: será que vão ter a paciência necessária? Mas na metade do ano, eu já estava tranquila. Aqui ele faz educação física, coisa que antes não deixavam. Aprendeu a chutar e a pedir bola. Aqui ele faz menos atividades de papel, mas brinca mais com as crianças e participa das historinhas. E o diário de bordo foi a professora que me ensinou a fazer”.

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