Referência em inclusão e acessibilidade!
ACESSO GRÁTIS| Leitor de Tela
Dia 5 de agosto de 2016 | Por Revista D+ | Sobre Edição 10 e Paralimpíada
barra_qr_01
barra_qr_02barra_qr_03barra_qr_04barra_qr_05barra_qr_06barra_qr_07barra_qr_08barra_qr_09

Conteúdo em Libras

Texto em Português

Fernando Aranha estreia nova modalidade esportiva na Paralimpíada

Por Renata Lins

 

Fernando Aranha Rocha, 38 anos, é um dos precursores do paratriatlo no Brasil. Ele irá competir nessa modalidade que estreia na Paralimpíada do Rio de Janeiro. Quando criança foi levado para a antiga Febem (atual Fundação Casa) porque seus pais não tinham condições de criá-lo. Depois, foi encaminhado para o Pequeno Cotolengo, internato católico para pessoas com deficiência, onde vive até hoje. Conheça a história desse esportista.

 

Revista D+: Como foi sua infância no internato?

Fernando Aranha: Primeiramente, eu fui encaminhado para uma Febem de São Paulo. Na época ainda era Fundação Bem Estar do Menor. Pelo fato de eu ter a deficiência, eu fui encaminhado, posteriormente, para uma casa especializada, aos quatro ou cinco anos de idade. Era parecido com o internato, só que em Limeira. Depois, fui encaminhado para o pequeno Cotolengo de São Luiz, onde estou desde os meus sete anos de idade.

Eu cresci lá e era arteiro como qualquer moleque da minha idade. Subia nos telhados, escalava árvores, subia nas cadeiras, pulava a janela. Era um colégio especialmente para pessoas com deficiência física, mas que tinha acesso direto ao pessoal do bairro que não tinha deficiência. Então, os meninos iam jogar bola e eu também, eles iam namorar, mas eu ficava olhando (risos). Toda a condição que eu tive para me desenvolver: em relação a corpo, cognição e agilidade, veio dessa época. Claro que eu também pulava o muro!

 

Em que momento o esporte surgiu na sua vida?

O esporte surgiu quando eu terminei essa fase da escola, apareceu um amigo, ex-interno do colégio, e me falou que tinha o basquete em cadeira de rodas.

Então eu pulava o muro junto com outro rapaz. Eu ajudava ele pular: um subia no muro, puxava a cadeira, o outro subia no muro e jogava a cadeira do outro lado. A gente atravessava a rodovia, pegava o ônibus e ia  parar no Ibirapuera. Eu ia todos os sábados, fielmente, aos treinos. Isso durante um ano, que foi o período que eu fiz isso sem os padres saberem.

Aí iria ter uma competição fora do estado e eu tive que abrir o jogo e falar com os padres para pedir permissão para participar do campeonato. Eu sofri algumas sanções, mas eles acabaram liberando, nessa época eu tinha uns 17 anos.

 

Teve algum momento em que percebeu que não conseguiria viver do esporte?

De 2004 a 2009 eu fiz uma graduação em comunicação – Rádio e TV. Nesse período eu comecei a praticar esporte individual, porque devido ao tempo, era a forma que eu conseguia treinar. Foi quando eu parti para o atletismo e consegui a São Silvestre. Corri a maratona de São Paulo, a meia maratona do Rio, maratona de Nova York… Mas eu não me considerava um atleta de rendimento, porque eu tinha que conciliar trabalho e esporte junto.

Quando eu consegui voltar para o esporte de rendimento, eu comprei uma handbike, e isso me deu mais motivação para continuar a treinar forte. Comecei a participar.

Ainda tinham poucas provas no estado de São Paulo, e eu estava procurando provas que pudesse participar com maior frequência, e nessa época as provas do Troféu Brasil estavam mais em voga, foi aí que eu tive a oportunidade de fazer minha primeira prova de triatlo, quando ainda nem tinha o paratriatlo. Eu vi que tinha o “Motorzinho”, um cadeirante que hoje é referência em Santos, e eu achei que era uma boa fazer a prova com ele.

 

Em que momento você realmente ingressou no esporte de rendimento?

Em 2010 eu fui convocado para a Seleção Brasileira de Ciclismo, aí sim eu decidi que ia fazer um esporte de rendimento. Em 2012 eu fui convocado para a Seleção de Ciclismo, para a Seleção de Triatlo e também para a Seleção de Sky Cross Country visando às competições em Sôchi, na Rússia. E cá estou, depois de muitas reviravoltas!

Eu tive que correr atrás, e acabei sendo, neste ano de 2016, o único atleta que entrou de forma direta pelo ranking no triatlo para poder disputar a Paralimpíada.

 

Você já fez atletismo, basquete, ciclismo, triatlo, esqui cross country… o que você faz para conseguir “dar conta” de todas essas atividades? De onde vem toda a energia?

Para mim, o esporte é muito natural, eu nasci com vontade de praticar alguma coisa. Desenterrando uma memória agora, eu lembro que um dos primeiros livros, senão o primeiro que eu peguei na minha infância, foi um livro de educação física da escola. Então eu via lá: atletismo. E tentava fazer salto na beirada da cama, subia no banheiro (que tinha bastante espaço lá), e tentava fazer acrobacias. Quando você é pequeno você é mais leve, tem mais força…

 

O fato de receber os jogos em casa traz uma pressão maior à competição?

Ter uma paralimpíada em casa traz uma pressão muito maior e sempre vai trazer, porque torcedor brasileiro é isso, desportista brasileiro é isto: você não pode ficar em segundo. Isso é uma coisa cultural do brasileiro. Não basta dar o melhor, você tem que ganhar. Se você for o segundo, de modo geral, as pessoas não percebem. Mas a gente esquece que eles também treinam.

Então, é sim, uma pressão muito grande. Mas, proporcionalmente, é uma pressão aliada ao incentivo porque todos vão estar lá, gritando o seu nome, todo mundo vai estar junto e é Brasil! O triatlo é uma modalidade sensacional, vou chutar alto: é a única modalidade que realmente expressa todas as potencialidades do esporte paralímpico mundial. Você vai ver o cara que tem uma deficiência no braço competindo com um que tem uma deficiência na perna, só que utilizando tecnologias diferentes em ambientes diferentes.

 

O que os brasileiros podem esperar das suas performances nos jogos Rio 2016?

O Brasil pode esperar o melhor que eu puder dar, e será sempre o melhor possível: garra, determinação e briga até o fim. Eu estou treinando bem, sempre. Antes a briga era para entrar nos jogos, agora eu estou nos jogos. A briga agora é pela medalha. Eu vou dar o meu melhor, por mim, pela minha família, pelos meus amigos, que é isso que me faz continuar todos os dias.

Sumário

Posts Relacionados

Acesse a Revista D+