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Dia 5 de agosto de 2016 | Por Revista D+ | Sobre Edição 10 e Paralimpíada
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Do lombo do boi ao caiaqueFernando-Rufino-garantiu-uma-vaga-para-os-Jogos-Paralímpicos-do-Rio-2016.-Foto-Arquivo-Pessoal-563x353

 Por Renata Lins

 

Fernando Rufino, 30 anos, é atleta da paracanoagem e ia disputar a Paralimpíada Rio 2016, mas no final de julho recebeu a notícia de que havia algo sério no coração, impeditivo para competições de alto rendimento.

Ele saiu do interior, no Mato Grosso, para o mundo. Depois de quatro acidentes quase fatais e de ter ficado paraplégico, o jovem que montava touros em rodeios passou a viver do esporte. Confira entrevista na íntegra à Revista D+:

 

Revista D+: Como foi sua infância? Você sempre morou no interior?

Fernando Rufino: Eu era um moleque de sítio, moleque de fazenda que fazia seus próprios carrinhos. Cortava o chinelo do meu pai para fazer rodinha para os carrinhos – tomava um “pau” depois.

Comecei minha infância no Mato Grosso. As coisas que aconteciam em casa, as machucaduras, por exemplo, nós mesmos que consertávamos. Meu pai, que fez até a quarta série do ensino fundamental, era o médico, e minha mãe, a farmacêutica. Mas também tínhamos a comida mais saudável possível no sítio. Tínhamos gado e plantávamos lavoura.

Agora eu moro na cidade [São Paulo] há quatro anos e vim pelo esporte. Antes disso, toda a minha vida era no sítio, ia para a escola de cavalo e carroça. Não tinha merenda escolar, minha mãe fazia bolacha para eu levar. Eu falava: “Mãe, prepara um saco deste tamanho para eu levar, e um copão de leite!”.

O meu sonho era terminar o ensino médio e fazer alguma coisa da vida. Nasci em Eldorado, mas sou, há 20 anos, de Itaquiraí. Eu acho que eu nasci para competir. Eu pensei: preciso fazer alguma coisa da vida. No jogo eu era bom em duas coisas: pegar no gol e chutar pênalti. Eu jogava de botina, nunca tive tênis. Pensei: eu preciso competir, preciso arrumar alguma coisa que me leve lá para fora.

 

Quem te incentivou a montar em rodeios? Essa sempre foi sua paixão?

As pessoas me diziam que montar em touro “resolvia”: eu conseguiria ir para outros países assim. Descobri que os melhores cowboys do país iam para Las Vegas disputar o campeonato mundial, onde o rodeio é muito forte e lucrativo. Então eu pensei: vou começar a montar em touro, bezerro, em tudo que tinha em casa! Nessa época eu tinha 18 anos.

Comecei a me destacar na montaria. Quanto mais eu me destacava, mais as luzes de Las Vegas piscavam na minha cabeça! Eu falava assim: “Eu vou para aquele lugar, não importa quem é o touro mais duro do planeta ou o cowboy mais ‘bão’ do mundo, eu vou ganhar dele”.

 

Cowboy 2Como ocorreram os acidentes que você sofreu?

Dia 10 de janeiro de 2005, caí do touro e o boi pisou na minha cabeça. Eu quebrei o maxilar, pois o boi pisou e esmigalhou tudo. Ficou tudo fora do lugar: olhos, orelha! O doutor botou no lugar! Mas eu pensei: “Isso aqui não vai me parar, não”.

Em novembro do mesmo ano eu já estava bom, foi quando houve a fatalidade de ficar paraplégico. Eu estava voltando da escola, caí do ônibus, ele passou por cima de mim e quebrou minha coluna. Fui para o hospital e fiquei desacordado. Quando eu acordei, a primeira coisa que eu pensei foi: caramba, será que eu ainda consigo montar em touro? Eu tinha muita determinação. A vontade dentro de mim falava mais alto que o meu desânimo. Mas aí percebi que eu não ia poder montar mais, então pensei: ah, não acredito, não vou mais montar em touro, não vou mais para Las Vegas! Mas eu não tive depressão. Pensei: bom, espera eu sarar, vamos ver o que vai sobrar vivo em mim ainda. O médico me disse: o maior remédio é você mesmo. Aí eu falei: então, beleza!

Foi nesse tempo que eu conheci o que é família: foi importantíssima para mim nesse momento. Eu tive as melhores coisas no mundo: fé em Deus, família e amigos.

Em 2006, andando com um amigo de moto num “pau desgramento” para buscar um refrigerante no boteco, a moto velha saiu da estrada e eu bati de frente com a árvore de eucalipto. Eu quebrei a perna e fui para o hospital. Lá estava meu pai de novo no hospital comigo mais 15 dias.

Sarando dessa perna, em outubro de 2007, eu estava de boa lá em casa, cai um raio na minha cabeça! Quase me matou também! O raio caiu em cima de mim e eu fiquei fedendo à pólvora! Queimou até as instalações de casa e do vizinho!

Eu tinha que passar por essas coisas para contar essa história hoje aqui. Mas eu ainda pensava: o que que eu vou fazer da minha vida para eu ir a Las Vegas? Aí eu pensei: então eu vou praticar esporte. Mas eu pensei de novo: esporte para aleijado existe? Aleijado é inútil, eu pensava, só presta para comer.

 

Quando conheceu a paracanoagem?

Eu fui para Brasília fazer um tratamento e o médico me viu durante as aulas de educação física. Eu pegava a cadeira de rodas do basquete e saía correndo, batia nos outros, ‘pa pa pa pa’! Aí ele me falou: Por que você não faz um esporte? Aí eu disse: mas existe esporte que leva para Las Vegas? Eu não conhecia a Paralimpíada. Vi na televisão e falei: esse povo é tudo louco! Essas mulheres viram mortal, esses homens são fortes virados no cão! Eu pensava: não nasci para isso.

Junior Cesar: esse foi o cara que “ligou a chave do carro”. Um amigo que me mandou para fora. É de Itaquiraí, e eu sou muito grato a ele. Me falou para fazer uns experimentos nos exercícios lá em Campo Grande. Aí eu fiz halterofilismo, arremesso de peso, par ou ímpar, iô iô, o que tinha eu fui fazendo! Aí foi quando ele me disse: tem a canoagem também. Aí eu disse: vamos lá ver então.

Quando eu vi o povo remando, disse: mas que moleza! Quem for meu adversário está ferrado!

 

E como foi? Era fácil mesmo?!

Meu Deus do céu, que trem difícil! Eu não parava naquele barco. Eu fiquei três dias fazendo teste, e pensei: se nesses três dias eu não conseguir parar nesse barco eu vou embora. Isso era dia 4 de agosto de 2012.

Que raio de peão que eu sou? Eu montava em touro e não vou parar nesse barquinho?! Aí no terceiro dia eu dei uma volta e disse: vou ter uma prosa com esse barco agora. Eu disse: olha, eu preciso ir para Las Vegas, eu preciso ir para fora. Eu preciso ir nas suas costas. Eu não fui no lombo do touro, agora é com você. Se aprume! Deixe eu remar você! Eu preciso ir, bicho! Eu quero ir!

Depois de vários tombos, eu já estava parando em cima do barco. Aí eu comecei a conversar com meu primeiro treinador, Adimir Arantes. Falei: acho que eu estou ficando bom nesse negócio. Aí no quarto dia, parece que eu dormi e acordei atleta. Eu parei no barco, remei: “Uhuuuu, Las Vegas!”.

Então comecei pesquisar os concorrentes dentro da minha categoria. Eu vesti a camisa de atleta que nem eu vestia para montar em touro. Montar, comer, treinar, e pensar em ganhar, em ser o melhor que eu podia ser. Não é ser o melhor pisando nos outros, mas ser o melhor dentro das minhas potencialidades. Eu tenho muita fé em mim.

Rodeio ou Paracanoagem?

Os dois. Porque os dois constroem o cowboy aqui. Se fosse só um desses, eu não seria um dos melhores atletas da paracanoagem, e no meu estado, um dos melhores cowboys que já teve na época. Então acho que eu sou composto de muitas coisas, de vários jogos. E assim, eu compito comigo mesmo. Eu não estou lá só para ganhar do cara, mas para me superar. Eu que achava que era só louco que queria competir na Paralimpíada, hoje, eu sou um desses loucos!

 

Qual foi sua maior dificuldade no esporte?

A grande sacada não é só você querer, é desejar e conseguir. Eu tinha minhas limitações, sou de uma cidade pequena, e não tinha oportunidade nenhuma, mas eu criei minhas oportunidades. A oportunidade tem certa velocidade, ela chega e vaza. Se você não aproveitou, já era. Corri atrás e descobri onde estavam minhas oportunidades.

Eu acredito que a pessoa com deficiência deve se impor, ela não pode pensar: “Ah, eu sou deficiente, vocês têm que me ajudar”. Eu acho que a pessoas tem que dar os pulos dela. Hoje eu estou aparecendo na mídia, mas o tanto de suor nessa água… então tem que levantar e ir buscar, assim como eu fiz, para conquistar os meus sonhos, independentemente de ter deficiência.

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