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Dia 5 de agosto de 2016 | Por Revista D+ | Sobre Edição 10 e Paralimpíada

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O melhor do mundo no futebol de 5

Por Renata Linsricardinho

 

Ricardo Steinmetz Alves, 25, o Ricardinho, é mais conhecido como o melhor jogador do mundo no futebol de cegos. Perdeu a visão quando criança, e achou que o sonho de jogar bola tinha chegado ao fim. Mas na adolescência conheceu o futebol de 5, praticado por pessoas com deficiência visual. Hoje, é um dos grandes medalhistas brasileiros e irá competir nos Jogos paralímpicos Rio 2016.

 

Revista D+: De onde surgiu sua paixão pelo futebol?

Ricardinho: A paixão pelo futebol surgiu na minha vida de uma forma bem natural. Meu pai e meu irmão mais velho sempre gostaram de futebol e já me incentivavam, e eu creio que Deus me deu este dom para eu aproveitar da melhor forma. Fui me desenvolvendo e sentindo muito prazer por essa atividade, então é aquela história, quando é pra ser…! E comigo foi assim: as coisas aconteceram da melhor forma e eu cheguei onde cheguei!

 

Como foi saber que poderia jogar futebol mesmo após ter perdido a visão? 

Quando eu descobri que poderia jogar futebol sem enxergar foi uma alegria imensa porque eu estava voltando a viver um sonho que eu tinha desde muito novo, que era tornar-me um jogador profissional de futebol. Quando eu perdi a visão achei que nunca mais iria poder jogar bola, mas quando conheci essa modalidade eu voltei a sonhar. Quem me apresentou o futebol de 5 foi o professor Dodô, primeiro professor que eu tive depois que fiquei cego, ele que me deu toda a iniciação na parte esportiva, me contou que no Brasil havia várias equipes, assim como pelo mundo afora, seleções de vários países e que se eu tinha pretensão de ser um jogador de futebol dependia só de mim, que eu teria que ir atrás, aí voltei a sonhar, me motivei e fui em busca do que eu queria.

 

A que você atribui tanto talento, já que aos 15 anos já estava na seleção brasileira principal?

Eu atribuo o talento de jogar futebol a um dom que Deus me deu. Eu acho que a gente não escolhe ser jogador ou coisa do tipo, claro que depende da nossa força de vontade, mas tem que ter o dom para jogar futebol ou qualquer outra atividade.

Eu nasci com esse dom, todo dom tem que ser desenvolvido, cada pessoa nasce com o seu, em várias áreas, mas precisam ser lapidados para poder colher bons frutos lá na frente.

 

Quais foram suas principais dificuldades e barreiras no início da carreira?

Enfrentei todas as dificuldades que qualquer atleta enfrenta no começo, ainda em 2004, quando comecei no esporte paralímpico ainda tinham áreas amadoras, então era bastante complicado. Inclusive, no começo, eu atuava por amor à camiseta, era uma espécie de investimento no meu sonho. O bom é que deu resultado e hoje é extremamente profissional. Enfrentei também algumas coisas relacionadas à minha deficiência, não só no esporte, certo preconceito. As pessoas ainda não me viam como o vencedor que hoje eu sou. Provei para elas que eu podia vencer na vida, na carreira que eu fosse seguir. Mas antes duvidavam. Não me apoiavam muito, exceto a minha família que sempre me apoiou.

 

Qual sua maior referência no esporte?

Tenho como principal referência o atual treinador da seleção brasileira, Fábio Luis, que foi goleiro da seleção brasileira até 2012. Joguei com ele durante oito anos e já estamos trabalhando há quatro temporadas. Me espelho muito nele porque foi um cara que, quando cheguei na seleção brasileira, com 16 anos. me acolheu muito bem. Sempre foi meu melhor amigo dentro da equipe, um cara muito bom como pessoa, extremamente profissional, correto, justo e que me ensinou muita coisa.

Ele entende muito de futebol, foi o maior goleiro que eu já presenciei atuando no futebol de 5. É uma pessoa fantástica e humilde. Todos esses valores que ele tinha como jogador e hoje tem como treinador são exemplos positivos pra mim, aprendi muito com as orientações dele, fui seguindo os passos dele, que me deram bons resultados.

Se cheguei onde cheguei, muito foi pela influência dele dentro da equipe, que foi de ótimo proveito. Admiro muito o trabalho dele e o tenho como grande amigo, é um cara que levo pra vida toda, considero como se fosse um irmão de sangue.

 

Quem é seu maior motivador?

Posso dizer que quem mais me motiva para que eu me dedique ao máximo, e que eu procure sempre estar melhorando na minha profissão e como pessoa é a minha família. Desde sempre gosto muito de dar orgulho pra eles porque além de serem meus familiares são pessoas que passaram do meu lado a barra mais difícil da minha vida: quando perdi a visão com oito anos. Então botei na cabeça que daria a volta por cima, que eu chegaria bastante longe, tanto pra minha satisfação pessoal, quanto pra que eu pudesse enchê-los de alegria e orgulho, então eu tenho toda a minha família como principal motivadora pra que eu fique sempre na luta e brigando por mais sucesso.

 

Como foi participar e ganhar os títulos nas Paralimpíadas de Pequim e Londres? Conte um pouquinho sobre essas experiências, em especial a final entre Brasil e China em que vocês viraram o jogo em Pequim

Sou um atleta privilegiado por ter conquistado duas medalhas de ouro em Paralimpíada, fui para as duas últimas edições dos jogos. Quando cheguei à Seleção Brasileira, em 2005, a equipe do Brasil tinha sido recém-campeã em Atenas. Falava-se muito sobre a grandeza dessa competição, que na nossa modalidade é o campeonato mais valorizado, mais até que o mundial. Então eu já tinha realizado o sonho de me tornar jogador, de chegar à seleção brasileira, e alimentei mais um sonho, o de ser campeão paralímpico.

Tive a primeira oportunidade em 2008, aos 19 anos, e foi a primeira medalha de ouro. Foi diferente porque foi um jogo muito difícil, a gente enfrentou a China jogando em casa, a equipe deles era muito forte, surpreendeu todo mundo e nós vencemos de virada, faltando 30 segundos para acabar, eu fiz o gol de empate, então foi um jogo extremamente emocionante, me marcou muito porque foi minha primeira medalha de ouro em Paralimpíada, foi sensacional!

Quatro anos depois, em Londres, pude, junto com o Brasil, ficar com a medalha de ouro de novo, desta vez, vencendo a França por dois a zero. Também foi marcante pela grandeza da competição e por ter sido a segunda medalha de ouro pra mim. Se é difícil ganhar uma, imagine duas! Para a Seleção Brasileira foi a terceira, agora vamos à busca da quarta, se Deus quiser!

 

Você se sente pressionado a trazer o ouro pelo fato de ter uma Paralimpíada em casa?

Sem dúvida, existe uma pressão enorme, não só em cima de mim, mas todo o time do Brasil. Nós somos bastante cobrados porque temos uma grande equipe que vem ganhando muitos títulos. Somos os atuais tricampeões dos jogos paralímpicos, então é natural que todo mundo jogue a expectativa sobre a nossa equipe, assim, a cobrança aumenta ainda mais porque é em casa, mas eu tenho certeza que isso não vai nos atrapalhar, pelo contrário, isso tem feito com que a gente trabalhe mais sério ainda. Temos noção do tamanho dessa cobrança, do que vamos enfrentar. Nosso time é bastante experiente apesar de ter jogadores jovens, nós temos bastante rodagem, vamos fazer o que a gente sempre vem fazendo: jogar  sério, com bastante dedicação e muita humildade, que é importantíssimo. Manter nosso espírito vencedor, este é o nosso diferencial: o pessoal gosta de vencer, tem personalidade. Acho que vai dar tudo certo, se Deus quiser. Respeitamos os outros times que vão chegar em grande fase, em nível muito alto pra brigar por esse título, mas sabemos do nosso potencial e vamos em busca de mais esse objetivo.

 

Como está sua recuperação da fratura na perna? Sente que estará pronto a tempo para os jogos em setembro?

Está indo muito bem, estou entrando numa nova fase de trabalhos, na qual já estou correndo, fazendo atividades com bola. Dá pra se dizer que é um período do tratamento bem agradável, quando eu já começo a fazer as atividades bem próximas das de situação de jogo. A parte mais chata, aquela inicial, já ficou pra trás. Graças a Deus está indo muito tranqüilo, tudo indo dentro do previsto, estou até adiantado nos prazos e vou estar pronto pra jogar em setembro para representar o Brasil nas Paralimpíadas.

 

Em sua opinião, o que falta ainda para que as Paralimpíadas alcancem o mesmo patamar das Olimpíadas?

Acho que ainda está faltando maior reconhecimento e questão de justiça, porque os atletas paralímpicos trazem muito mais medalhas para o nosso país do que os olímpicos, e, de maneira nenhuma, estou menosprezando os atletas olímpicos, mas é importante frisar que o esporte paralímpico, no quadro de medalhas, tem uma colocação muito melhor. Tem obtido muitos resultados satisfatórios, porém, com investimento menor. Então precisa de um maior reconhecimento, o esporte paralímpico merece mais investimento, mais patrocínio, de acordo com o que tem feito pelo nosso país. Por outro lado, ambos ainda não são reconhecidos como deveriam no nosso país, mas isso vem crescendo, está cada vez mais profissional, o que é muito importante.

 

Como estão os preparativos para os Jogos Rio 2016?  O coração está acelerado?

Estão muito bons, de minha parte, estou na reta final de recuperação da cirurgia que fiz, e falando da nossa equipe, tudo está correndo muito bem, o Brasil disputou dois campeonatos este ano, um na China e outro no Rio de Janeiro, venceu os dois, com desempenho muito bom, e isso mostra que o trabalho está sendo bem feito, então não tenho dúvidas que vamos chegar em setembro bem afiados, tanto na parte física quanto na parte tática e técnica.

Eu estou bastante ansioso, louco para que chegue a hora de poder entrar em campo e fazer a nossa função, que é representar bem o nosso país, brigar por mais uma medalha de ouro. Vai ser, sem dúvida, uma competição marcante, talvez a maior das nossas carreiras, porque uma Paralimpíada em casa é algo histórico.

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