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Dia 5 de agosto de 2016 | Por Revista D+ | Sobre Edição 10 e Paralimpíada

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Conteúdo em Libras

Texto em Português

_MG_9828“Tenho lição de vida todos os dias”

Por Renata Lins

 

Susana Schnarndorf, 48 anos, é paratleta brasileira, nadadora, e vai competir nas Paralimpíadas Rio 2016. Ela tem uma síndrome degenerativa rara chamada MSA, múltipla atrofia dos sistemas. Mas isso não a impediu de participar de 13 provas do Ironman, provas internacionais e Jogos Pan-Americanos. Estamos torcendo para que conquiste medalhas em setembro!

 

Revista D+: Você sempre foi atleta, não é?

Susana Schnarndorf: Sim. Fui nadadora, depois comecei no triatlo. Desde que eu me conheço, eu treino!

 

Conte um pouquinho sobre a múltipla atrofia dos sistemas (MSA). Como você descobriu?

Antes era chamada de síndrome Shy Drager. Em 2005 eu comecei a ter os primeiros sintomas, eu não conseguia engolir, comecei a ter muita rigidez muscular, a perder os movimentos das mãos. A partir disso foi uma maratona de médicos para descobrir o que eu tinha. A evolução da síndrome foi muito rápida, pensaram que eu tinha um tumor no cérebro, depois acharam que era um derrame, Parkinson, depois um Partinson “plus”… Você vai ficando maluca com cada diagnóstico. Deram-me três anos de vida.

A minha filha tinha seis meses, foi difícil até que com alguns medicamentos eu consegui engolir a comida novamente e com a fisioterapia eu comecei a nadar e conheci o pessoal do paralímpico. Eles me chamaram para participar e comecei a treinar com eles em 2010.

 

Você tinha quantos ano s quando se descobriu com a MSA?

Eu tinha 37 anos, agora eu estou com 48.

 

Você passou por um período de depressão. Como foi?

Eu passava o dia inteiro nadando e pedalando, e cheguei a um ponto em que eu não conseguia nem ao menos escovar meus dentes. Meu maior medo era faltar para meus filhos, não conseguia mais fazer nada. Foi a fase mais difícil, pois quando alguém te dá um prazo para sua morte, é horrível de escutar.

A doença degenerativa é um mistério ainda para a medicina. Eles conseguiram chegar ao diagnóstico certo depois que outros sintomas foram acontecendo. Eu tenho baixa pressão arterial, se eu levantar aqui, desmaio. Tenho só 40% da capacidade respiratória: aí os médicos foram montando e deram o diagnóstico.

Com essa doença, a pessoa tem uma expectativa de vida de cinco a sete anos e eu a tenho há 11 anos.

 

Você disputou a Paralimpíada de Londres. Como foi?

Eu fiquei em 4º lugar no nado peito, não consegui a medalha por poucos centésimos, ficou guardado pro Rio!

 

Você também ganhou uma medalha do Comitê _MG_9797Paralímpico como melhor paratetla…

Sim, em 2013 eu fui campeã mundial nos 100 metros peito e ganhei o prêmio de melhor paratleta do ano do comitê feminino. Foi um ano muito importante para mim. Despois eu passei por uma fase difícil de novo, pois a doença voltou a evoluir e eu fiquei fora da minha classe. Nós fazemos uma avaliação funcional e eles nos colocam em uma classe certa, junto com outras pessoas que têm o mesmo nível de deficiência. Como a minha doença evoluiu, eu fiquei fora. Foram dois anos muito difíceis até a reclassificação. Agora eu sou S5. Mudar de categoria foi um alivio, porque eu não teria condições de ir para à Paralimpíada.

 

Como você analisa a inclusão da pessoa com deficiência no esporte?

Tenho certeza que é essencial. Como mudou a minha vida, pode mudar a vida de muita gente. É uma oportunidade que todos deveriam ter. Eu acho que se eu não estivesse treinando eu não estaria aqui contando essa história para vocês.

É importante tanto para o lado físico quanto para o  psicológico. Antes eu tinha vergonha de sair para comer fora, pois eu não consigo cortar carne, por exemplo. Depois que eu conheci o pessoal do paralímpico, eu me sinto muito mais à vontade, agora, se eu quiser comer um bife com a mão, eu simplesmente pego e como, não estou nem aí! Aqui eu tenho lição de vida todos os dias.

 

Como está o seu ritmo de treino para a Paralímpiada?

Estou treinando forte, todos os dias de manhã e de tarde. Três vezes por semana eu treino duas vezes por dia.

 

Você acha que a responsabilidade é maior por ser uma Paralímpiada em casa?

Embora as pessoas falem que vai ter muita pressão, eu acho que vai ser uma pressão boa de ter o carinho da nossa torcida. Atleta convive com pressão, nós temos que dar resultado. Ter a minha família e meus amigos torcendo por mim não tem preço, então está tranquilo.

 

Sobre os valores dos ingressos da Paralimpíada serem menores que os da Olimpíada: qual a sua opinião sobre isso?

Eu acho que o povo brasileiro não conhece muito sobre o esporte paralímpico e eles não têm culpa, porque não é muito divulgado. Acho que faltou um trabalho de apresentar a Paralímpiada aqui no Brasil. Em Londres eles fizeram um trabalho grande de divulgação muito antes. O brasileiro ainda enxerga esses atletas como coitadinhos.

O maior legado que essa Paralimpíada vai deixar no Rio de Janeiro é mostrar que aqui não tem nenhum coitadinho, que não precisa ter pena. Não tem ninguém infeliz aqui; as pessoas fazem de tudo como podem. Falta que as pessoas enxerguem esse lado.

 

O que as pessoas podem esperar de você nas competições?

Podem esperar meu 100%. Vou fazer de tudo para estar na minha melhor forma e realizar meu sonho de subir no pódio. Só de falar eu já fico arrepiada. Eu acho que sou uma pessoa muito abençoada, nunca ganhei nada de mão beijada, eu já tinha esse sonho desde pequena e acredito que estou fazendo de tudo para conseguir realizá-lo.

 

Como foi participar do filme Paratodos? Como foi assistir?

Foi muito bacana, eu chorei e ao mesmo tempo ri muito. Para mim, mais importante do que qualquer medalha que eu ganhe é conseguir inspirar as pessoas a não desistir ou deixar as oportunidades passarem na vida. Mostra que a gente é infeliz por escolha, a gente escolhe até isso; todos no filme têm altos e baixos e ninguém desistiu, acho que isso é o mais importante. Quando parece que é o fim do caminho, que as portas estão fechadas há sempre uma janelinha para você pular.

Fiquei muito feliz de eles contarem a minha história no filme, porque às vezes o filme muda sua vida também. Eu recebi diversas mensagens e agora esse sonho não é mais meu apenas. Tem muitas pessoas que me mandaram mensagem dizendo: “Você não desistiu, então eu também não vou desistir”.

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