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Dia 5 de agosto de 2016 | Por Revista D+ | Sobre Edição 10 e Paralimpíada

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A mais veloz _MG_9766(e a mais coloridado mundo

Por Taís Lambert

 

Ela tem um jeito único de aparecer nas pistas quando vai correr. O cabelo vem rosa, os laçarotes e as presilhas, assim como a maquiagem bem feita (por ela) não faltam nunca.

Terezinha Guilhermina tem 37 anos e é considerada a atleta cega mais rápida do mundo pelo Guiness Book. Mineira de Betim, tem 12 irmãos, sendo cinco com deficiência visual, assim como ela, que nasceu com menos de 5% da visão.

Nos Jogos Paralímpicos Terezinha correrá quatro provas e é uma das maiores esperanças de ouro para o país, assim como já foi em muitas outras competições.

Veja a seguir uma entrevista franca e contundente que ela concedeu à Revista D+ antes de se deixar fotografar para a nossa capa.

 

Revista D+: De que maneira o esporte surgiu em sua vida?

Terezinha Guilhermina: O esporte entrou na minha vida, em especial o atletismo, depois de eu ter concluído o ensino técnico em Administração e não ter mercado de trabalho.

Soube que a prefeitura de Betim, em Minas Gerais, ia oferecer um projeto de esporte – o atletismo e a natação – para a pessoa com deficiência. Em um primeiro momento, eu me inscrevi para a natação, mas chegando em casa eu disse que preferia correr, mas que não tinha tênis. Nessa ocasião, minha irmã, Evânia, me deu o único tênis que ela tinha e foi assim que eu comecei no atletismo.

 

O que você comprou com o seu primeiro prêmio?

A primeira corrida daria como prêmio R$ 100, R$ 80 e R$ 70 para os três primeiros colocados, respectivamente. Eu fiquei em segundo e comprei um iogurte com o dinheiro. Era um iogurte que eu sempre quis tomar na minha infância. Então, foi naquele momento que eu decidi que eu poderia realizar todos os meus sonhos através do esporte.


O que a levou à cegueira?
Sempre tive perda superior a 95% da visão. Além da retinóide pigmentar, havia a miopia e o astigmatismo alto – e agora estou desenvolvendo catarata também. Elas são progressivas: em 2005, por exemplo, meu campo visual passou por uma considerável piora.

 

Isso interfere, inclusive, em sua classificação no esporte…

Sim, eu passei pela reclassificação – fui para a classe 11. São três: 11, 12 e 13. Quanto mais baixo o número da classe, mais comprometimento visual. Na classe 11, é obrigatório usar venda e guia.

 

_MG_9751Como é sair de uma cidade do interior de vida simples, e se tornar a atleta cega mais rápida do mundo?

Desde criança eu sempre quis ser a melhor do mundo, independentemente da profissão que eu teria. Eu achava que sendo a melhor não haveria espaço para o preconceito. Sempre estudei em escola convencional e via a diferença de tratamento entre as pessoas com e sem deficiência. A perspectiva e expectativa de fututo para quem tinha deficiência era muito diferente. Eu vi que eu teria que quebrar mais paradigmas ainda para entrar no mercado de trabalho.

Mas no esporte, percebi que só dependia de mim. Se eu treinasse mais, eu conseguiria correr mais do que todo mundo. Foi nisso que pensei, abri mão de tudo, mesmo não tendo dinheiro e condições no início, pois não tinha nem o que comer direito – eu comia farinha com açúcar no final do treino – eu me propunha a treinar mais que qualquer outro atleta para conseguir o rendimento necessário para ser a melhor.

 

Qual foi o momento mais impactante da sua carreira?

Com certeza foi a entrada para o Guiness Book como a atleta cega mais rápida do mundo, porque sempre busquei o título de a melhor do mundo. Londres me deu esse título, esse reconhecimento mundial.

 

Hoje em dia você treina com dois guias. Como é agora e como foi com o guia anterior?

Treino com o Rafael e o Rodrigo, mas não sabemos se na Paralimpíada poderei ter dois guias. Então, possivelmente, quem vai comigo é o Rafael.

Foi um trabalho excelente com o guia anterior, o Guilherme. Quando eu comecei com ele, já era recordista mundial. Tive mais de seis guias e todos eles foram muito funcionais. É importante que o condicionamento físico do guia seja melhor do que o meu. Eu dependo de um guia.

 

No geral, quantas medalhas você tem?

Mais de 300 medalhas. São seis paralímpicas, 13 ou 14 mundiais. As panamericanas são 17.

 

O que você espera dos Jogos Paralímpicos em casa?

Espero o melhor, espero dar o meu melhor. Espero reconhecimento de forma financeira, na inclusão, que ajude alguém a se espelhar. Quero superar minhas marcas.

 

Como são os seus treinos?

São seis dias na semana, dez treinos – pois tem dias em que eu faço dois treinos  – varia de três a oito horas por dia, com variações de alongamento, salto, musculação, fortalecimento, corrida e trabalho tático de provas.

 

O que você pretende fazer depois de parar de correr?

Eu sou psicóloga formada. Pretendo ser psicóloga do esporte, fazer mestrado e doutorado na área, além de me especializar como coaching esportivo e geral. Eu gosto muito de liderar, sou assim desde criança.

 

As pessoas, geralmente, têm duas maneiras de tratar a pessoa com deficiência: ou como vítima, “coitada”; ou como heroína, super-humana. O Que você acha dessas abordagens?

Eu acho extremamente cansativo. Quando colocam a gente nesse estereótipo, não permitem que a gente saia dele. Ou a gente é totalmente coitado ou totalmente super- herói. E na verdade não é assim. Quando você é a vítima, o coitado, é como se não tivesse o direito de sonhar, de lutar. E quando é herói, não pode desistir, se cansar, se machucar, perder.

Quando a sociedade nos coloca nesses estereótipos eles não permitem que a gente tenha flexibilidade para fazer diferente, de errar ou de não conseguir. O Brasil tem uma cultura agressiva no que tange a atletas que não conquistam uma medalha de outro. Você não tem direito de ganhar uma de prata: ou você ganha ouro, ou você não é bom.

E muitas vezes, ao ganhar ouros, você acostuma as pessoas com isso e perde o direito de entregar menos. Chega a um patamar em que não oferecem mais por esses ouros. Esse é um dos grandes problemas de investimento. Nunca vamos receber igual a um jogador de futebol ou um profissional do automobilismo.

A falta de informação e conhecimento sobre o mundo do paradesporto atrapalha muito. Só se mostra o mundo de medalhas que a gente ganha, mas não as imensas dificuldades que passamos no dia a dia, o tempo todo, para chegar lá.

 Você é muito centrada e exigente consigo mesma, não é?

 

Essa pressão que fazem de fora é muito menor do que a interna. Eu conquistei o que eu queria. Sou psicóloga e terapeutizada para lidar com isso. Sei que a pressão, o status, o glamour vêm no pacote. A maneira de administrar isso é o que faz diferença.

Eu tenho meu estilo, meu perfil, meu jeito de me diferenciar e me impor em meio a tantos. Acho que esse é um dos desafios que eu tenho conseguido vencer. Acaba amenizando a pressão e o estresse.

 

Você está sempre colorida, com alto astral. Como é se manter assim?_MG_9784

Como eu sei que todos os holofotes estão para mim, eu faço questão que me vejam colorida, divertida e engraçada. Eu me sinto bem assim. Eu gosto de cores. Quando eu entro na pista, eu me divirto, eu danço, até para manter o aquecimento também. Eu sou muito tímida, que é meu lado de dentro mesmo, meu íntimo – até como autoproteção – e tenho minha personagem. Que não me vejam de tromba, que me vejam feliz, sorridente, porque eu amo o que eu estou indo ali fazer, não tenho por que estar triste.

 

Quais são os momentos de maior incômodo com a cegueira?

Os momentos de maior incômodo são quando eu não posso sair de casa sozinha. Eu não gosto de sair sozinha porque não sei quem está se aproximando. Eu não tinha muitos problemas com isso, mas, uma vez, fui morar em Cuiabá e havia um lugar bem perto de casa que vendia drogas, era uma boca. E eu não sabia.

A Evânia enxerga – é ela quem faz as minhas vendas – e veio morar comigo. Me disse que eu estava em um lugar bastante inapropriado e eram os frequentadores de lá que me ajudavam. Percebi que eu não conseguia me defender e acabava me expondo a riscos dos quais eu não conseguiria me safar sozinha.

 

Você sentiu medo?

Sim, comecei a sentir mais medo, fui me fechando. Acabei mudando para Curitiba e lá as pessoas são bem mais fechadas do que aqui em São Paulo. Me sinto insegura sem uma pessoa comigo. Quando estou sozinha, procuro ficar o mais quieta possível para chamar o mínimo de atenção. Mas também por causa do cabelo rosa, sempre tem gente querendo tirar foto!

 

Você acredita que a Paralimpíada no Brasil deixará uma espécie de legado capaz de melhorar a inclusão social das pessoas com deficiência?

Acredito que a Paralimpíada em casa, com a repercussão que a mídia vai oferecer, sem dúvida vai oferecer recursos no que tange à construção dessa sociedade com mentalidade mais inclusiva. Somos tão brasileiros quanto os outros, apenas temos alguma limitação, como qualquer ser humano, inclusive. O esporte é uma porta que o preconceito não fecha. Não te impede de treinar. O esporte permite que uma pessoa tetraplégica, com comprometimento de mobilidade, que só mexa o olho, compita, faça um esporte e conquiste medalhas.

Ninguém é impossibilitado de fazer as coisas. A gente pode não fazer como todo mundo faz. Talvez a gente precise de um pouco mais de tempo, talvez façamos um pouco mais torto, um pouco mais manchado, um pouco mais confuso, mas a gente vai fazer.

Eu, enquanto pessoa com deficiência, luto para fazer o meu melhor. Para que esse lado “coitado” não seja visto primeiro. Porque infelizmente o preconceito vem primeiro: se você tem deficiência, você tem que ser feio, tem que ser torto, não consegue olhar nos olhos dos outros, “tem que se comportar como um cego”.

Eu espero, do fundo do coração, que a Paralimpíada não mostre as limitações da pessoa, mas o que ela é capaz de fazer. Pois limitações todos nós temos. Nunca vi um ser humano voando sem ajuda de asa delta! Viu? Não dá para fazer tudo!

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