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Dia 5 de agosto de 2016 | Por Revista D+ | Sobre Edição 10 e Paralimpíada

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Texto em Português

“Eu perdi minha
perna, mas e daí?”

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Por Renata Lins

 

O paranaense Vinicius Rodrigues, 21 anos, acaba de chegar à categoria de paratleta. Por conta de um acidente que amputou sua perna há dois anos, o velocista – cuja madrinha no esporte é ninguém menos que Terezinha Guilhermina, a atleta cega mais rápida do mundo – tem feito muito sucesso nas pistas e na publicidade.

Ele não conseguiu índice suficiente para participar da Paralimpíada do Rio, mas segue veloz em direção aos seus sonhos. Confira a entrevista completa.

 

Revista D+: Como era sua vida antes do acidente?

Vinicius Rodrigues: Era bem ativa, eu praticava bastante atividade física. Sofri o acidente com 19 anos. Eu estava terminando o serviço militar, onde eu tive minha primeira experiência com competição. Fiz um concurso na polícia militar, passei, e por causa do acidente eu tive que parar com esse meu sonho.

 

Como aconteceu?
Eu estava voltando do meu trabalho, estava na faixa da esquerda, e tinha um carro no acostamento. Eu estava de moto e ele fez uma manobra proibida. Aí o carro me fechou e eu fui arremessado por cima dele. O carro amputou minha perna na hora. Eu até tentei levantar, mas não consegui. Foi um choque, é claro, mas a adrenalina não me deixou sentir dor na hora. Parei, pisquei umas três vezes tentando acordar, porque eu pensei que estava em um sonho, só que não era. Tem algo dentro de mim que não deixou que eu ficasse triste, eu pensava sempre positivo.

 

Você contou com o apoio de quem na época?

Quem mais me apoiou nesse período foi a minha família, eu fiquei na UTI. E ficava pensando na minha vida, no que eu ia fazer sem a minha perna. Cada um tem uma fuga, a minha base foi a família, e eu sempre pensei que se Deus permitiu que acontecesse isso comigo é porque ele teria algo maior, e eu confiei nele, fiz uma oração.

 

O que aconteceu em seguida?

Esse “algo bom” veio: quatro dias depois da internação, eu recebi a visita da Terezinha [Terezinha Guilhermina, velocista cega] no hospital. Nós tínhamos amigos em comum. Ela foi e me levou um presente, um moletom do Brasil, e isso me motivou. Era isso que eu precisava, eu estava sem norte, ela chegou e eu disse “pronto!”.

A Terezinha mostrou um vídeo do Heinrich Popow, atleta alemão, campeão em Londres, correndo. Aí eu quis conhecê-lo, mandei uma mensagem contando que tinha perdido a perna e ele me respondeu. Eu falei: eu vi um vídeo seu correndo e eu quero correr igual a você. Disse que precisava de ajuda para conseguir prótese, porque era algo novo para mim. Aí ele falou com um amigo dele de São Paulo, que é da clínica que me patrocina hoje, e através disso eu conheci a Ottobok, que é minha patrocinadora de material esportivo.

Ele me ensinou a correr em um evento que teve no Brasil. Minha primeira experiência foi seis meses após o acidente.

 

_MG_9657Você não conseguiu vaga na Paralimpíada. Como foi isso?

Na última classificatória eu fiquei entre os dez do ranking, mas por conta de o Brasil ser uma potência no paralímpico, você tem que estar rankeado entre os quatro melhores do mundo, então, como eu estou entre os dez, não deu para ir à Paralimpíada do Rio.

Mas agora estou focado porque tem mundial em Londres ano que vem. Como eu tenho apenas um ano como profissional, ainda tenho muita coisa para aprender.

 

Como você encarou essa primeira derrota?

Eu não consegui atingir meu objetivo do Rio, ficar triste eu fiquei. Mas agora vou ficar preso nisso? Não vou. Eu preciso ver o que eu fiz de bom. Por exemplo, eu perdi minha perna, mas e daí? Hoje eu tenho a oportunidade de ir mais longe com uma do que poderia ir com as duas. Mesmo sendo uma derrota, sempre tem algo que vai te fortalecer. Isso é um teste para ver o tamanho da nossa força. Se isso for me derrubar, isso vai me deixar no chão para sempre. Ou eu posso levantar e continuar a caminhada, seja com uma perna, seja cego… é cada um com sua limitação.

 

Quem é sua maior inspiração?

A Terezinha é a pessoa que mais me inspira hoje. A nossa história começou em um quarto de hospital e vai terminar em um pódio.  Eu vou torcer para ela agora no Rio, e ela, se não estiver comigo, vai estar torcendo por mim, e a gente vai continuar essa amizade. Hoje ela é minha madrinha e minha conselheira.

 

Como foi sua primeira experiência com o esporte nesta nova condição física?

Minha primeira experiência com esporte foi na Associação Desportiva para Deficientes (ADD), que é meu clube atual. Lá eu vejo as crianças: elas vão passar pela escola, pela faculdade e pela questão do preconceito e eles vão ter que aprender a lidar com isso. Por serem crianças ainda, e por muitos já terem nascido com deficiência, têm mais tempo para aprender e praticar, diferente de mim que adquiri depois. Acho que eles podem ser melhores do que eu (risos).

 

Que mensagem você deixaria para as pessoas com deficiência que querem seguir no esporte?

Eu diria para eles começarem a ter experiências com o esporte. É claro que, para ser um atleta de alto rendimento, não é fácil, mas vale a pena. Eu fiquei amputado com 19 anos, eu queria ter sido amputado com 13 ou 14 porque estaria bem mais adaptado e bem mais evoluído tecnicamente e fisicamente.

 

O que você vê para o seu futuro?

Eu comecei a treinar em novembro com a Seleção Brasileira de Atletismo, foi algo que mudou a minha vida, principalmente psicologicamente. Eu amadureci muito. E eu pretendo continuar no nível que estou: treino seis vezes por semana, oito horas por dia. Acreditando que se eu continuar assim vai dar tudo certo.

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