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Dia 18 de novembro de 2016 | Por Revista D+ | Sobre Oculto Edição 11

 

entrevista Rosa Buccino texto e fotos Taís Lambert, do Rio de Janeiro

entrevista Rosa Buccino
texto e fotos Taís Lambert,
do Rio de Janeiro

Em algum momento de nossa jornada individual, algo ou alguém nos imprimirá marcas profundas. Algumas delas neutralizam, paralisam ou aprisionam. Outras são como energia elétrica: uma vez que acendemos as luzes, não há como ignorar o prazer (e o poder) da claridade.
Com Marcelo Ferreira de Vasconcelos Cavalcanti, 60 anos, diretor geral do Instituto Nacional

de Educação de Surdos, o INES; psicólogo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pós-graduado em gestão pública, a pergunta do título foi o seu “acender de luzes” pessoal. “A minha história é engraçada e interessante demais!”, adianta, entre sorrisos.

Ele, paraibano de Campina Grande, ouvinte, morador do Rio de Janeiro desde os oito meses de idade, frequentou a saleta da fonoaudióloga do INES a partir dos seis anos, por conta da disgrafia e dislexia. “É uma sala pequenininha perto do pátio. Eu passava por ali na hora do recreio de 

Marcelo Cavalcanti, atual diretor do INES, no corredor que leva à antiga saleta da fonoaudióloga que ele frequentava aos seis anos de idade: a vida o levou de volta à instituição

Marcelo Cavalcanti, atual diretor do INES, no corredor que leva à antiga saleta da fonoaudióloga que ele frequentava aos seis anos de idade: a vida o levou de volta à instituição

crianças da minha idade. Na algazarra, elas ficavam fazendo aquele som próprio do surdo”, conta Marcelo. “Aquilo deve ter causado um trauma em mim… Eu cresci, entrei no curso de psicologia e já fui direto para a área da deficiência, estudei de tudo; no entanto, surdo não chegava perto de mim de jeito nenhum. Sempre atuava na área da deficiência, mas surdez, n-ã-o”, enfatiza ele, que naquela época estava com 19 anos.
Como a vida é cheia de reviravoltas, Marcelo é diretor do INES pela segunda vez. O instituto é um centro de referência nacional na área da surdez e completará 160 anos em 2017. Localizado em Laranjeiras, na cidade do Rio de Janeiro, e reconhecido pelo Ministério da Educação (MEC), o instituto tem hoje 442 alunos matriculados no Colégio de Aplicação (CAP/INES), 240 alunos no Curso Superior (Desu/INES), 269 no curso de Pós-Graduação e 600 alunos matriculados no curso gratuito de Língua Brasileira de Sinais (Libras).

Marcelo Cavalcanti recebeu a Revista D+ em sua sala para uma entrevista exclusiva sobre as conquistas do INES – da formação educacional à inserção no mercado de trabalho, os serviços prestados pelo instituto e o universo da pessoa surda.
A seguir, confira todas as possibilidades educacionais e de empregabilidade oferecidas pelo INES e como o jovem que evitava surdos a todo custo aprendeu Libras, se apaixonou pelo tema e se transformou no diretor da maior referência na área da surdez do país.

Revista D+: Você não conseguia se relacionar com pessoas surdas por causa dessa lembrança de infância. Então, como veio parar justamente aqui, no INES?

Marcelo Ferreira de Vasconcelos Cavalcanti: Uma amiga americana, percebendo minha relutância em relação ao surdo, me apresentou o Carlos Alberto. Ele era oralizado. De vez em quando ele tentava se comunicar por sinais e eu dizia: “Pare com isso! Não tem nada que fazer sinal!”. Na faculdade eu havia aprendido que tudo deveria ser oralizado. E não tinha discussão comigo!
Uma vez fomos viajar para o sul do país, de onde ele é. Dormi no carro e só acordei no Rio Grande do Sul. Li uma placa que dizia: “Colônia de Férias de Surdos Capão da Canoa”. Pensei: “Acabaram minhas férias!”.

O que aconteceu depois?

Sentei a uma mesa, chateado. Mas tinha um detalhe: eu estava com o dente do sncpmsiso inflamado e ficava fazendo assim [Marcelo faz o movimento de inflar a bochecha com ar, de um lado só] o tempo todo para aliviar a dor. Passava homem, mulher, senhora de idade na mesa da frente e eu lá… [Ele repete o gesto].
No dia seguinte fomos à praia, eu e mais duzentos surdos. Estava isolado por causa da Libras, que eu não sabia. Uma amiga do Carlos Alberto – que a essa altura nem falava mais comigo – muito bem oralizada, me perguntou por que eu ficava fazendo aquilo com a boca. Expliquei que era o dente do siso que estava doendo muito. Ela soltou uma enorme gargalhada e foi até o grupo.

Isso é um sinal, não é? O sinal de…?!

Exatamente! Todo mundo veio falar comigo, rindo! Explicaram para mim que o que eu fazia para aliviar a dor de dente significava, em Libras, chamar o surdo para transar! Daí perguntei várias coisas e comecei a me entrosar, mas sempre com dificuldade por causa da língua que eu não aceitava.

E quando foi que aconteceu o “divisor de águas” para você?

Numa das noites, a gente saiu para ver o desfile de uma escola de samba, um bloco, não me lembro. O Vicente, um amigo do Carlos Alberto, muito bem oralizado também, me vendo sozinho, perguntou se eu estava chateado; e eu respondi que estava louco para pegar um avião e ir embora dali. Foi quando ele me perguntou: “Marcelo, você já notou que aqui você é o surdo?”. Era eu quem tinha o problema da comunicação ali, eu é que estava isolado por causa da maioria que só se comunicava em Libras. Aquilo me tocou profundamente.

Foi quando as mudanças começaram?

Sim, voltei para o Rio de Janeiro e me inscrevi num curso de Libras. Aquela pergunta me fez enxergar muitas coisas. Eu estava abrindo um consultório no Largo do Machado e passei a me empenhar e conviver com surdos para poder atendê-los na terapia. Concluí o curso de Libras e participava de tudo: ia às festas de associações de surdos, saía para dançar, ia às comemorações, tudo! Eu devia ter uns 25 anos. O Carlos Alberto, que passou a ser meu melhor amigo, passava aqui, em frente ao INES, e me dizia: “Um dia você será diretor do INES. Quando isso acontecer, faça uma faculdade pra gente”. Faz uns 20 anos que estou no instituto; agora no segundo mandato como diretor e só trabalho com surdos!

Quais são os principais serviços prestados pelo INES?

O INES dedica-se à Educação Precoce, que atende de recém-nascidos a crianças com três anos de idade; ao Colégio de Aplicação (CAP/INES), que abrange a Educação Infantil, o Ensino Fundamental e o Ensino Médio; e ao Ensino Superior, cujo curso de Pedagogia prepara e habilita os professores com foco na inclusão dos surdos.

Para quem o curso de Libras é direcionado?

O instituto mantém o curso gratuito da Libras, privilegiando os familiares de surdos, professores em formação, professores da rede pública, profissionais de empresas públicas e privadas, além de todos que tenham interesse nessa formação. Para concluir o curso é preciso que os alunos sejam submetidos a uma prova oficial que ateste seus conhecimentos sobre Libras, sempre que seja concluído cada um dos cinco módulos que integram o curso. O INES também realiza o Programa Nacional para Certificação de Proficiência em Libras e para Certificação de Proficiência em Tradução e Interpretação de Libras/Língua Portuguesa (Prolibras), em parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

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