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Dia 9 de novembro de 2017 | Por Revista D+ | Sobre Edição 17
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Institutos e pessoas com deficiência contam as melhores formas para o desenvolvimento da autonomia. Quando as possibilidades são dadas. muito pode ser conquistado por todos independentemente da sua deficiência.

Faixa preta em judô, aulas de jiu-jitsu, curso de fotografia, aula de pintura, teatro, cursos de gar­ çom,  massagem  e culinária. A lista extensa de atividades é de Felipe Vieira dos Reis, 24 anos. O jovem desenvolve múltiplas habilidades e ainda conta o que costuma fazer em seus momentos  de lazer: “Gos­to de passear, ir ao cinema, sair com amigos, shopping, vídeo game, guitarra e fotografar com a minha mãe”.

Felipe tem síndrome de Down  e não deixa de fazer nada que tenha vontade. Sua mãe, Sandra Regina Vieira dos Reis, fotógrafa, desde o seu nascimento buscou auxi­liá-lo para que ele se desenvolvesse como qualquer outra criança. “O meu propósito e do pai dele era de que o Felipe fosse feliz, e sempre fizemos de tudo para desenvolver todas as suas potencialidades.  Falo que eu abri todas as portas e ele que me mostrou qual era o caminho a seguir”, conta ela, que criou o Galera do Click, curso de fotografia destinado a pessoas com síndrome de Down,  no intuito de proporcionar autonomia por meio de uma profissão.

Ela revela que a questão da autonomia é um proces­so de amadurecimento  tanto dela, como mãe, quanto do filho. “Eu estou tentando lidar com essa ideia de soltar o Felipe para o mundo,  acho que tudo o que eu fiz foi para fortalecer o meu filho e agora chegou  a hora. Eu nunca pensei em uma idade cronológica,  nunca  vejo que ele tem 24 anos, porque tem dias que ele tem todas as ida­des. Às vezes é um velho rabugento e às vezes um bebê chorão, mas eu acredito que é ele quem mostra quando amadurece e está pronto para determinada coisa”.

A pessoa com síndrome de Down pode e deve ter uma vida comum como qualquer outra. Diante disso, ela deve ter as mesmas oportunidades:  acesso à escola, saúde, cultura, esporte,  lazer e aos apoios que necessitar para seu  desenvolvimento.  “A pessoa vai se expressar  por

meio de seus desejos, vontades e escolhas e, para isso,

deve ser bem orientada e consciente do que quer. Nesse aspecto, todos os envolvidos têm muito a colaborar, a fa­ mília precisa reconhecer as reais potencialidades e incen­ tivá-la a ser o mais independente possível (dentro de sua realidade), assim como  as organizações  e profissionais que atuam com essa pessoa. A escola também tem um papel fundamental nesse processo”, afirma Valquíria Bar­ bosa, 55 anos, gerente de Inclusão daApae de São Paulo.

A Apae oferece atendimentos e programas para que a pessoa com síndrome de Down possa desenvolver sua independência,  com  orientações  especificas  tanto para ela quanto para a família, com planejamento individual que atenda a necessidades específicas. Valquíria ainda lembra que as principais dificuldades da pessoa com Down estão nas barreiras atitudinais, no preconceito e no desconhe­cimento sobre a síndrome. “São fatores que interferem e dificultam o acesso  da pessoa com  essa deficiência na escola, no trabalho e de um modo geral na sociedade”.

“O primeiro passo é procurar um centro de reabilitação e profissionais que entendam sobre o assunto para poder auxiliar os filhos na autonomia” Mariana Brutto de Pinto, supervisora de fisioterapia da RRCD de Porto Alegre

FELIPE e a MÃE SANDRA editoria comportamento FELIPE editoria comportamento

“Estou tentando lidar com essa ideia de soltar o Felipe no mundo. Tudo o que fiz foi para fortalecer o meu filho e agora chegou a gora” Sandra Regina Vieira dos Reis, fotógrafa.

Sobre Novas Perspectivas

Quando a deficiência é visual, é necessário um novo tipo de perspectiva sobre o mundo. Se ela é adquirida, acarreta um processo de reabilitação e aceitação da nova condição para que as tarefas antes desempenhadas com a facilidade do olhar possam ser, agora, conquistadas por meio de outros sentidos

Marcio Ximenes Ramos, 36 anos, é presidente do Instituto Sul Mato-Grossense Para Cegos Florivaldo Vargas – Ismac, que é um centro de atendimento especializado. Ele tem deficiência visual adquirida devido a uma queda de cavalo. “Todos os programas de atendimento realizados pelo Instituto têm o objetivo de proporcionar autonomia e independência para as pessoas cegas e com baixa visão, bem como orientar a família para contribuir com o processo de reabilitação”, conta Marcio.

Ele ainda aponta as principais dificuldades para esse tipo de deficiência. “As pessoas cegas ou com baixa visão têm como maior limitador a falta de acessibilidade: nas calçadas e ruas, o acesso aos prédios, à informação, à cultura, à comunicação, ao trabalho, ao desporto, ao lazer e às políticas públicas. Os direitos são garantidos nas legislações, porém, não são efetivados na prática, limitando constantemente a garantia da cidadania dos cidadãos com deficiência”.

Após perder a visão por ser baleado em assalto, Mauricio Vital Stral, 34 anos, morador de Corumbá, Mato Grosso do Sul, passou por um processo de reabilitação no Ismac e atualmente trabalha como instrutor de informática e tecnologias assistivas. “Passei por diversos setores, como, aula de orientação e mobilidade, atividade da vida diária, aprendizagem do sistema Braille, tecnologias assistivas e a prática de futebol de 5 e Goalball”, explica.

Com a reabilitação, as atividades do cotidiano voltam a acontecer, e isso é de fato o ganho maior na autonomia.

“Realizo atividades domésticas, utilizo transporte coletivo, faço compras de roupas e alimentos. Quando eu perdi minha visão, dependia muito da minha esposa para fazer tudo. E quanto eu entrei no Instituto pude perceber que posso fazer tudo o que fazia antes, de um modo diferente”, diz Mauricio. O presidente da associação também reforça que essa aquisição de autonomia e inclusão social só acontece quando a pessoa tem oportunidades. “Temos que entender que a deficiência não é limite, é um obstáculo que conseguimos superar. O limite não está na pessoa, na maioria das vezes está no espaço e na falta de condições”, adverte Marcio.

Acessibilidade e reabilitação

Na deficiência física, assim como na visual, as barreiras arquitetônicas ainda são o principal desafio para mobilidade e enfrentar a cidade com seus percalços é tarefa árdua, e muitas vezes, difíceis de se executar só.

fachadaInes7 editoria comportamento APAE DE SÃO PAULO - editoria comportamento

A AACD promove cursos para os pacientes e familiares, a fim de ensiná-los a lidar com a deficiência e ajudar a melhorar a independência deles. Todas as áreas estão envolvidas para essa finalidade: a fisioterapia, psicologia, terapia ocupacional, fonodiologia e todos os profissionais orientam nesse processo.

João Batista Martins, 52 anos, morador de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, teve uma lesão medular devido a uma cirurgia de hérnia de disco. Na AACD ele faz fisioterapia de solo e aquática. “O processo de aquisição da minha autonomia foi lento visto que a cirurgia aconteceu em 2011. Por meio dessas sessões e também da psicologia, o processo foi se desenvolvendo. Foi lento, mas gradual”, conta João, afirmando que hoje já segue realizar atividades de higiene pessoal, cozinhar e caminhar com a bengala, que o auxilia no equilíbrio e na sustentação do corpo. “Não tenho nem palavras, é muito bom, pois dependia dos meus filhos e da minha esposa para as atividades de higiene pessoal, por exemplo. E hoje não preciso mais”, conta ele.

Quando a criança nasce  om alguma deficiência física, os pais devem buscar os centros de reabilitação para poder desenvolver as áreas que essa pessoa necessita para sua locomoção. “É preciso que os pais entendam qual é a deficiência, as maiores dificuldades e, com isso, buscar o auxílio em terapias necessárias”, informa Mariana Brutto de Pinto, 34 anos, supervisora de fisioterapia na AACD de Porto Alegre, sobre crianças que já nascem com deficiência. Ela ainda ressalta: “Isso precisa ser o mais cedo possivel, para auxiliar o quanto antes, pois mais fácil será estimular esses movimentos. Os pais vão aprendendo como lidar com a deficiência, como ajudar o filho em casa, na escola, então o primeiro passo é procurar um centro de reabilitação e profissionais que entendam sobre o assunto, para poder auxiliar os filhos nesse processo”.

A AACD dá o suporte necessário para que pessoas com deficiência física desenvolvam-se e rabilitem-se com o auxílio de profissionais de diversas áreas.

Surdos, ouvintes e libras

Joice de Sá - editoria comportamento

Joice Alves de Sá, 48 anos, é professora de Libras e surda congênita. Como nasceu em uma família ouvinte, não entrou em contato com a Língua de Sinais e teve diversas dificuldades na vida escolar. “Era dificil eu faltar na escola, gostava muito de ir, sentava na primeira fila, ouvia com um aparelho auditivo e acompanhava os professores com leitura labial”, conta ela. “Mas havia professores que não faziam os movimentos da boca como eu precisava para entender ou que tinham bigode que cobria todo o lábio… era terrível acompanhar a aula”.

Paulo Roberto do Nascimento, chefe de gabinete do Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES) no Rio de Janeiro, afirma que para a pessoa surda ter uma vida com autonomia é necessário que ela seja respeitada como pessoa surda. E que seja inserida em um ambiente bilingue, onde a língua de sinais deve ser considerada sua primeira língua. “O surdi deve ter contato com a língua de sinais o mais cedo possível. Acredito que a construção dessa autonomia é de responsabilidade tanto dos pais quanto dos institutos e escolas, pois sozinhos eles não dariam conta desse papel”.

“Percebi que era a comunicação com a sociedade a principal barreira, mas eu não desisti, ia atrás, nada me impedia” Joice Alves de Sá, professora de Libras, surda congênita.

GALERA DO CLICK editoria comportamento Marcio Ximenes Ramos - editoria comportamento (1) Valquiria Barbosa Apae - comportamento

Na primeira imagem, a Galera do Click, que tem como integrante o Felipe. Na segunda imagem, o diretor do Ismac, Marcio Ximenes Ramos, e, na terceira imagem, Mariana Brutto de Pinto, supervisora de fisioterapia da AACD de Porto Alegre.

Paulo conta que o projeto pedagógico do INES está centrado no bilinguismo, em que a língua de sinais é a língua de instrução e primeira língua do surdo. “Nesse contexto, temos também a Divisão de Qualificação e Encaminhamento Profissional, que promove cursos com o objetivo de preparar o surdo para a vida fora do Instituto, para o mercado de trabalho”.

Joyce conta que não teve contato com a Língua de Sinais até a adolescência e só muito mais tarde teve acesso a essa forma de comunicação. “Eu conhecia alguns surdos quando ia à fonoaudióloga, via que eles tinham mais: nem eu entendia o que eles falavam. Notei que não era a única com deficiência no mundo. Percebi que era a comunicação com a sociedade a principal barreira, mas eu não desisti, ia atrás, nada me impedia”.

Mauricio Vital Stral - editoria comportamento

“Percebi que posso fazer tudo o que fazia antes, de um modo diferente” Mauricio Vital Stral, instrutor de informática e tecnologias assistivas, cego.

A professora ainda ressalta que sua autonomia foi sendo conquistada gradualmente, mas que a dificuldade de comunicação é ainda hoje um grande problema, pois as pessoas, em geral, não conhecem a Libras e faltam intérpretes para auxiliar. “Até hoje existem famílias que não sabem o que fazer com o filho surdo. Conheço uma surda adolescente que não sabe Libras, não vai à escola e a deixam dentro de casa achando que ela é incapaz de sobreviver. Paro para pensar se eles não percebem que um dia vão ser velhos. Quem vai cuidar do filho surdo? Como ele vai sobreviver? As famílias precisam ir atrás de informações, buscar o que deve e pode ser feito por eles, pois hoje é mais fácil encontrar escolas e intérpretes. A acessibilidade é bem maior!.

O chefe de gabinete ainda ressalta que uma das grandes dificuldades da pessoa surda é o não cumprimento da legislação que trata de acessibilidade no país, como a Lei de Libras. Ele cita a Lei 535/2015: Art. 1º, que tem como objetivo assegurar às pessoas com deficiência auditiva o direito a atendimento por tradutor ou intérprete de Libras nos órgãos e nas entidades da Administração pública, direta, indireta e fundacional e nas empresas concessionárias de serviços públicos.

Percebemos que as barreiras de acessibilidade seja nas questões arquitetônicas, seja na comunicação, e mesmo o preconceito e a desinformação são os grandes entraves que ainda dificultam, anulam e isolam as pessoas, mesmo com os avanços já alcançados. Nosso dever como sociedade é estimular, acolher e batalhar juntos para que todas as pessoas tenham os mesmos direitos e oportunidades de ir e vir e de serem o que quiser.

 

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