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16 Espaço de Libras
Dia 9 de novembro de 2017 | Por Revista D+ | Sobre Edição 17
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Imagens sinalizadas revelam os desenhos da mente

A Libras, assim como as demais línguas gestuovisuais, manifesta-se no espaço em frente ao corpo daquele que sinaliza para que se possa criar relações entre os “seres” pensados por ele. A importância da disposição dos sinais no espaço de sinalização, chama-nos atenção uma vez que falhas na comunicação podem envolver ambiguidades que só poderão ser desfeitas na observação da construção deste espaço.

Em 1995, Lucinda Ferreira Brito trabalhou, entre outras coisas, com o espaço da sinalização em seu livro Por uma Gramática de Língua de Sinais. Em seus estudos, podendo perceber a necessidade de organizar a “área que contém todos os pontos dentro do raio de alcance das mãos”. Uma vez estabelecidos tais pontos, é possível relacioná-los de forma que se encontre, em um deles, algo ou alguém tendo um comportamento sobre um objeto ou uma pessoa.

Se um sinalizante desejasse comunicar que é possível ir a pé da sua casa até a faculdade, provavelmente, colocará tanto o sinal de casa quanto o sinal de faculdade em espaços diferentes. É provável também que o caminhar se inicie no espaço em que a casa foi sinalizada e termine no espaço em que a faculdade foi sinalizada, conforme se observa na figura 1.

Se uma pessoa que não fizesse parte da conversa observasse apenas os dois últimos sinais (CAMINHAR e POSSÍVEL), certamente, entenderia que o espaço percorrido pelo sinal CAMINHAR integra dois outros espaços e que, por inferência, poderia significar um espaço não tão longo, uma vez que se pode percorrê-lo a pé. Ele não saberia, contudo, quais “seres” estariam presentes nos espaços iniciais e finais do movimento CAMINHAR, “seres” estes que estão apenas na mente daquele que sinalizou e daquele que observou a sinalização desde o princípio.

A significação dos espaços em Libras é um mecanismo da própria língua, que possibilita criar ideias e retomá-as simplesmente referenciando o espaço no qual foram dispostas. Sabendo utiliza-lo, abrem-se caminhos para a criatividade na língua, enriquecendo-a, tornando-a interessante, compreensível e, acima de tudo, fazendo-a visualmente lógica.

A composição do espaço por meio da eleição e disposição dos elementos pode ser de escolha do sinalizante, cabendo a ele pensar o local antes de atribuir a cada espaço os objetos, as pessoas ou até mesmo as ideias abstratas. Uma vez estruturado em sua mente, o sinalizante começa sua sinalização, normalmente, seguindo uma ordem cronológica dos fatos que pretende abordar. Assim, monta uma cena, estabelece relações ou comportamento dos “seres” componentes da cena; logo depois, monta outra cena e estabelece outras relações e assim por diante. Imagine uma cena em que uma pessoa lê, com muita concentração, um livro e, de repente, um telefone ao seu lado esquerdo toca, assustando-a. Cronologicamente, seria possível separar esta cena em três momentos lendo o livro, telefone tocando e pessoa assustando (figura 2).

FIGURA 1
É possível ir a pé de casa até a faculdade

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Com uma análise cuidadosa, percebe-se que o comportamento de ler e o comportamento de assustar acontecem no mesmo “ser” (na mesma pessoa), contudo, a representação de ler o livro, como que imitando uma pessoa que lê, acontece no corpo do sinalizante, levando sua atenção ao objeto lido: o livro. Pode-se perceber que o livro, então, está em outro espaço, que não o do telefone e nem o daquele que lê. Quando se sinaliza o tocar do telefone (no espaço em que o telefone está disposto), a atenção do sinalizante é levada a esse espaço, porém o comportamento de assustar acontece no corpo do próprio sinalizante que, enquanto comunica os fatos, está representando.

Mesmo que pouco estudado, já se é possível perceber que o espaço na Libras serve às representações, às sinalizações, às relações, às localizações e talvez apresente muitas outras funções, ainda não pensadas. Por meio dessa pequena análise, pode-se começar a pensar que o espaço da sinalização, nunca totalmente desprovido de significado, é aquele que abrange tudo na Libras: desde todos os parâmetros (movimento, expressões, etc) até os referentes trazidos à conversa por meio deles (coisas, conceitos, etc).

FIGURA 2
Uma pessoa lê um livro e, de repente, um telefone toca e a assusta

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