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EXISTIMOS – Quer vejam, quer não
Dia 9 de novembro de 2017 | Por Revista D+ | Sobre Edição 17
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Nossa capa – Depoimentos

Nossa capa – Deixe seu preconceito de lado, respeite as diferenças

Nossa capa – O que é orientação sexual?

Nossa capa – O que é identidade de gênero?

Nossa capa – Pessoas com deficiência e identidade de gênero no disque 100


A invisibilidade das pessoas com deficiência que são LGBTs é tão contundente quanto o preconceito e a desinformação que giram em torno destas duas parcelas sociais, isoladamente. Descobri-los, incluí-los e respeitá-los é indispensável: os direitos deles são tão importantes quanto os seus.

Não há como falar de lésbicas, gays, bissexuais e transgê­ neros (LGBTs) no Brasil sem associá-los à violência que sofrem. O país é o campeão  mundial de crimes contra as minorias sexuais. No ano passado, 347 foram assassina-

dos. Em 2010 foram 260 mortes e, em 2000, a soma era de 130. Os dados são do Grupo Gay da Bahia (GGB), a mais antiga associação brasileira de defesa dos direitos gays no país, que há 37 anos coleta e divulga este tipo de homicídio.  Os números provam que a LGB­Tfobia no Brasil é responsável por matar mais homossexuais  do que matam os 13 países do Oriente e da África, onde há pena de morte contra LGBTs.

“Tais números  alarmantes  são apenas  a ponta  de um iceberg

de violência e sangue, pois não havendo estatísticas governamen­ tais sobre crimes de ódio, tais números são sempre subnotificados”, afirma o Prof. Dr. Luiz Mott,  antropólogo  e historiador  responsável pelo site Quem a homofobia matou hoje e fundador do GGB. “Nosso banco  de dados se baseia em notícias publicadas  na mídia, internet e informações pessoais. A falta de estatísticas oficiais, diferentemen­ te do que ocorre nos Estados Unidos, é prova da incompetência  e homofobia governamental”, explica Mott, que é hoje um dos maiores nomes sobre estudos da homocultura no mundo.

Não há lei que criminaliza a LGBTfobia no Brasil. O que não falta, em contrapartida, são regras sociais que marginalizam aqueles que são diferentes do padrão  heteronormativo,  reservando-lhes a larga e profunda vala da intolerância e do preconceito. Em tantos casos, a vala da morte mesmo. Não por acaso, em pleno século 21 o país protagoniza discursos capengas como os da “cura gay”.

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CarilissaHelena, surdas, e a filha Sofia: a família vive no Rio Grande do Sul.

MARCADORES SOCIAIS DA DESIGUALDADE

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Para as pessoas todos nós somos,  em princípio, ape­ nas aquilo que elas conseguem ver: corpo,  gestos e estilo. Isso inclui cabelos, cor, estatura, tipo físico, referências étni­ cas, modos de vestir etc. “As pessoas LGBTs são objeto de violência sistemática em função de não corresponderem  ao que a sociedade espera que sejam homens e mulheres”, diz Tatiana Lionço, 41 anos, psicóloga e professora adjunta do Departamento de Psicologia Escolar e do Desenvolvimento, do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB).

As pessoas com deficiência, assim como as LGBTs, são historicamente marginalizadas, cuja invisibilidade (no sistema de saúde, no mercado  de trabalho, na área educacional) é vigente ainda hoje, com raras exceções baseadas em ini­ ciativas exemplares, mas absolutamente escassas. Ao unir essas duas características- deficiência e diversidade sexual-em um indivíduo, há uma dupla discriminação.

“Temos aí, pelo menos, dois marcadores sociais da de­ sigualdade, que podem ainda se sobrepor em várias outras formas  de subalternização.  É  o  que pode  ser  entendido como perspectiva interseccional: a conexão de diferentes marcadores sociais em um corpo”, explica Lionço, que tam­ bém é coordenadora  do Núcleo de Estudos da Diversidade Sexual e de Gênero do Centro de Estudos Avançados Multi­ disciplinares da UnB.

“A questão da violência contra LGBTs no Brasil está re­lacionada à educação patriarcal e machista que ainda impe­ra no país, com influência e apoio de segmentos religiosos fundamentalistas. A pessoa  com  deficiência é vista como incapaz, ‘coitada’, sempre ouvindo discursos capacitistas, muitas vezes de membros  da família, dos profissionais de educação  e da saúde. Junte as duas coisas e a discrimi­nação será múltipla”, enfatiza Alon Maurício da Silva Silva,29 anos, psicólogo,  instrutor e tradutor-intérprete de Libras na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e coordenador  do Projeto de Extensão Diversilibras- Comunidade Surda e Diversidade Sexual, pioneiro no estado.

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Carilissa é a mãe de Sofia e está casada com Helenne há quatro anos. “Somos uma família muito feliz!”, afirma Carilissa.

Como exemplo, rapidamente podemos construir uma personagem com alguns marcadores sociais da desigualdade: mulher negra,  lésbica, pobre  e cadeirante. Tatiana Lionço ainda chama a atenção: “Faz muita diferença ser um gay branco de classe média ou um gay negro com deficiência psicomotora. Uma travesti branca com paraplegia não ocu pa o mesmo lugar social que uma travesti negra dançarina de uma importante companhia artística”. Em outras palavras, há diversidades que são, até certo ponto, mais toleradas do que outras a depender da lógica de valores, por assim dizer, que rege determinada sociedade. Para entender as batalhas cotidianas das pessoas com deficiência LGBTs- e também suas alegrias, seu modo de enxergar e de sentir o que lhes acontece ao longo da vida- a Revista D+ entrevistou quatro pessoas: um casal de lésbicas surdas e mães, um homosse­xual cego e uma bissexual cadeirante. Acompanhe a seguir

EM TEMPOS DE AMARGURA, AMAR CURA

Carilissa DaiiAiba tem 32 anos e é professora de Libras da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul. Pesquisadora e doutoranda em Linguística, também é lésbica, surda, mãe da Sofia, oito anos, e casada no civil há quatro anos com Helenne Schroeder Sanderson, 29 anos, professora de Libras, designer, fotógrafa e cineasta, surda também. A história das duas começou no Facebook- Ca­ rilissa no sul do país e Helenne, em Brasília. Encontraram-se em Porto Alegre e deram início a um romance sério que, para ambas, acontecia de maneira especial pela primeira vez em suas vidas. “Cresci pensando diferente das minhas amigas, irmãs e primas. Elas sonhavam em casar-se com homens, eu nunca me imaginei casada com um. De maneira geral, a pessoa me interessava mais do que o sexo dela, mas a mi­ nha atração por mulheres sempre foi maior”, conta Carilissa.


“Eu esqueço que sou lésbica e que sou casada com uma mulher, porque veio a minha esposa como pessoa. Tenho orgulho da minha orientação sexual, é algo natural em mim e vivo intensamente com a orientação que a vida me trouxe.

Sou surda, lésbica e feminista. Acima de tudo, sou alguém que sabe viver a vida. Gosto de dizer que sou a Carilissa que segue o coração.

Acho que cada um deve aceitar a si mesmo primeiro e depois assumir para a sociedade. Mesmo assim ainda me pergunto: “assumir” para que? Hétero assume? Meus pais ouvintes sempre falaram comigo por sinais e minha filha, mesmo sem eu ensinar, aprendeu Libras. Eles me ajudaram muito a cuidar da Sofia para que eu pudesse crescer profissionalmente. São pais maravilhosos, amigos. A Sofia é bastante inteligente e esperta e as professoras me dizem que ela se orgulha muito da família que tem e é feliz! Quanto a Helenne, ter esposa surda é maravilhoso pelo conforto linguístico. Gera mais compreensão, amor, cumplicidade e amizade. Ela é o meu amor! Sobre a cura gay, é um absurdo… O preconceito que precisa de cura.

A Helenne me fez ser outra pessoa, mais leve e mais feliz. O amor cura a vida.”

Carilissa Dall’Alba, surda, lésbica, professora e esposa de Helenne Schroeder Sanderson.


Dos 16 aos 28 anos, ela se envolveu com homens e mu­lheres e teve a filha, Sofia. Quando conheceu Helenne, aos 28, sentiu-se apaixonada pela primeira vez e decidiu assu­mir sua orientação sexual. “Confesso que pensei: não tenho mais saída. Tenho que assumir porque é com ela que quero viver a minha vida!”.

Carilissa diz usar a palavra ‘assumir’ entre aspas porque acha que ninguém precisa assumir a própria vida aos outros. “Com uns três meses de namoro com a Helenne, minha irmã me disse que sabia da minha sexualidade e me pediu para falar aos meus pais. Não tive coragem  por algum tempo, até que minha mãe me disse que sabia de tudo e me pediu para ser discreta porque ela se preocupava com a violência contra gays. Disse que só queria me ver feliz e nada mais”, conta. Com os amigos, ela disse ter sido tranquilo também. “Como eu sou surda, faço parte da comunidade surda, que é minoria linguística. Surdo aceita surdo com todos os tipos de características. Surdo negro, pobre, analfabeto, gay. To­ dos aceitam bem um ao outro porque o grupo é pequeno e quer ficar junto”.

Para Helenne, as coisas foram e são muito mais complica­ das. Seus pais não aceitam, até hoje, sua orientação sexual e, mesmo antes dessa questão, sofreu bastante no seio de sua própria família pelo fato de ser surda. “A minha mãe me batia muito porque não nos comunicávamos bem. Eu falava errado e ela ficava muito brava comigo; eu não entendia o que ela falava, então, ela me batia. Quando tive a primeira namorada, que era ouvinte, tentei falar para minha mãe que eu era lésbi­ ca, mas ela nem acreditou, achou que era uma fase. O meu pai foi muito preconceituoso: falou que se eu namorasse com uma mulher ele tiraria o meu nome da família. Fiquei apavora­ da, era imatura e terminei o namoro. Depois disso fui obrigada a fingir que era heterossexual, que gostava de homens”.

O sentimento de exclusão, naturalmente, nunca causa efeitos positivos. Mônica Pereira dos Santos, 54 anos, psicó­ loga e professora na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), alerta para os sentimentos que advêm do fato de não pertencer: “Nós nos sentimos inadequados,  sem lugar, su­ focados, ignorados, enraivecidos, magoados, em verdadeiro processo de luto de si mesmo. Mesmo naqueles casos em que damos a volta por cima, ainda assim, os sentimentos que temos que superar para transformar em vitória a nossa luta foram ácidos e negativos um dia. Isso não pode fazer bem a ninguém”, esclarece ela, que também é presidente da Comissão Executiva do Fórum Permanente UFRJ Acessível e Inclusiva, que tem como objetivo manter viva a discussão dos direitos das pessoas (alunos, técnicos e docentes) com deficiência e mobilidade reduzida da UFRJ.

Helenne tem muita admiração pelos pais e pelas irmãs de Carilissa. “Eles conversam  comigo  como  uma pessoa da família deles, me respeitam,  sempre  me contam  novi­ dades e demonstram  carinho.  Aprendi  com eles o signifi­ cado de família”, confessa.

E a filha? Como lida com essa realidade? Perguntamos para ela como é ter duas mães. “Normal”, disse. “Eu gosto da minha família. Uma colega diz que minha mãe é fofinha e a outra quer aprender Libras”, conta  Sofia Daii’Aiba Fa­ rias, oito anos, com a singeleza e honestidade que só uma criança é capaz de oferecer. Carilissa conta que, ao co­ meçar o namoro com Helenne, a Sofia tinha quatro anos. “No começo,  mostrava a Sofia para a Helenne pelo Skype ou FaceTime, elas passavam um tempo conversando  e construindo  um elo. Quando a Helenne veio morar com a gente, foi tudo tranquilo. A construção  do relacionamento das duas foi natural, aos poucos  conquistaram  o amor e a confiança uma da outra. A Sofia começou  a desenhar nós três: foi ali que vi que ela curtia nós duas juntas. As crianças têm uma sabedoria  muito especial, no fundo, elas sabem como as coisas são”, relata a mãe.

Helenne afirma que não ficou com receios: “Deixo que ela perceba tudo. Para me aproximar dela, bastou conver­sar, brincar e olhar. Tudo natural. A Sofia é muito esperta e querida. Sou a melhor amiga dela e a amo como minha filha”.


DEIXE SEU PRECONCEITO DE LADO, RESPEITE AS DIFERENÇAS.

Recentemente, a Secretaria de Direitos Humanos lançou uma campanha sobre a visibilidade LGBT. Dentro dessa campanha, diversos personagens LGBTs, incluindo a pessoa com deficiência, são protagonistas do tema Deixe seu preconceito de lado. Respeite as diferenças. Acesse todo o conteúdo – cartazes, spot de rádio e vídeo – em www.sdh.gov.br/lgbt.


“Quando eu descobri minha orientação sexual, nem sabia que era um problema. Afinal, eu continuava a mesma pessoa. Todos aceitaram bem, sempre me trataram da mesma forma, menos a minha família. 

O mais importante é aceitar a si mesmo e ajudar o próximo.

Carilissa e eu pensamos assim, gostamos muito de ajudar as pessoas. Meus pais ainda não conhecem meus sogros. Evitam conhece-los e se unir.

É uma pena, pois queria muito que meus pais vissem como sou feliz.

Quando comecei a namorar a Carilissa, eu não sabia de muitas coisas. Ela é muito independente e me estimulou a fazer a segunda graduação e vários outros cursos. Por exemplo, eu nunca estudei em escola de surdos como a Carilissa teve sorte de estudar. Eu sofri muito bullying na escola de ouvintes, sofri muito… E meus pais e minhas irmãs não faziam nada. Aprendi Libras depois dos 15 anos. Mas foi a Carilissa que me ensinou que Libras tem lei, aspectos linguísticos e foi com ela que conheci muitas coisas da área surda. Ela vale outro e me ajuda com todo amor.

Desejo muito que a revista ajude a reunir meus pais, e que a gente possa fazer nossa festa de casamento com todos juntos.”

Helenne Schroeder Sanderson, surda, lésbica, designer e esposa de Carilissa Dall’Alba.


PARA VER ALÉM

Ao constatar a própria homossexualidade, Edgard Ja­cques Fernandes, 33 anos, levou um pequeno susto. Mas com o tempo entendeu que se tratava de um traço da sua personalidade, que era de sua natureza.

Minha família, apesar de não ter conhecimento de nin­guém dentre os seus que se assumisse gay, nunca adotou qualquer postura de intolerância quanto a esse tema. Imagino que, por conta da minha condição, meu pai e minha mãe aprenderam a lidar com o preconceito, com os próprios, inclusive. Portanto, não tive medo de ser quem eu sou. Se a família te aceita, é mais fácil não se intimidar diante da sociedade”, relata Edgard, que é cego, gay, ator e consultor em audiodescrição. Por ser cego, a adolescência de Edgard foi bastante atípica, com poucos amigos, muitos livros, discos e quase nenhuma vida social. “Por isso, ao me descobrir homossexual, não fui buscar imediatamente parceiros ou qualquer outro modo de exercitar a minha sexualidade. Isso simplesmente não era uma prioridade”, relata.

Certo dia, sua mãe lhe perguntou se não sentia falta de ter uma namorada.  “Respondi  que não, que gostaria, um dia, de ter um namorado. Ela se surpreendeu, mas em se­ guida me disse ter ficado aliviada. Ela chegou a achar que eu não tinha libido, e isso sim a preocupava. No mesmo dia, fiz questão de contar ao meu pai. Não queria esconder  nada dele, e ao me ouvir, ele declarou:  ‘Ah, é por isso que você nunca me pediu para te levar num bordel!’. Nós rimos”.

De acordo com o psicólogo Alon Maurício, da UFBA, é co­mum as pessoas acreditarem que a pessoa com deficiência é assexuada ou heterossexual sempre. “Durante anos, o corpo do sujeito com deficiência foi (e tem sido) alvo de intervenções médicas, fisioterápicas e corretivas que não contribuem para despertar o erotismo. Ao contrário, tais intervenções apontam que há de errado, diferente, que precisa ser consertado, normalizado. Caso contrário, será um corpo doente. O sexo está intimamente ligado à juventude e atração física e quando aiguém foge a esses padrões muitas vezes é visto como incapaz”.

Para Edgard,  ser pessoa com deficiência sempre foi mais complicado  do que ser gay. “Tive diversos processos de autoaceitação, diversas fases e ajudas para construir minha autoconfiança”, confessa ele. Assertivo, vai mais longe: “A  sexualidade da pessoa com deficiência consegue ser ainda mais ignorada que a própria pessoa. Há muita gente ainda que se surpreende ao ouvir um cadeirante dizer que transa, e esse número é dobrado  se ouvem que ele transa com outros homens. É muito comum eu andar de mãos com um ficante na rua e as pessoas pensarem que o ele é só alguém que está me ajudando, e se por acaso nos beijamos, há um estranhamento desproporcional  ao fato”.

Mônica Pereira dos Santos, psicóloga da UFRJ, salienta que todos temos sexualidade. “O fato de se ter uma deficiência não implica em perda de sexualidade, embora algumas deficiências possam incorrer na perda de algumas funções orgânicas usadas no ato sexual convencional. Mas sexualidade vai muito além de ato sexual. Tem a ver com sentir e desejar. E o que cada um pode sentir ou desejar varia imensamente de pessoa para pessoa”, conclui.

Edgar14

Edgard é ator e cego: a homossexualidade foi bem aceita pela família, o que encorajou a enfrentar os preconceitos sociais.

Na arte da conquista, Edgard conta que a principal difi­ culdade é manter sua autoestima diante dos diversos nãos que ouve num investimento amoroso. “Afinal, nunca sabe­ mos se a negativa é fruto da estranheza daquele cara ao deparar com um cego a cortejá-lo, ou se você simplesmente não faz o tipo dele”, explica ele, que namora há alguns me­ ses um intérprete de Libras.

“Viver uma relação homossexual já é bastante complexo, viver uma com alguém que carrega consigo outro estigma é ainda mais bandeiras para se hastear. Em geral, pesso­ as idealizam seus parceiros, procurando  sempre quem se pareça mais com as suas projeções, e ninguém projeta um cego em seus devaneios amorosos”.


“Vivemos o primeiro momento histórico na civilização humana em que a pessoa com deficiência convive em sociedade, por isso começamos a propor novos modos de sermos vistos.

A sociedade tem, sim, preconceito quanto à homossexualidade de pessoas com deficiência, e ela se manifesta tanto na ignorância de sua existência quanto na total repulsa ao percebê-la.

Numa ocasião, estava hospedado em uma pensão e, durante conversa com o locatário do meu quarto, mantive minha mão atrelada a de uma rapaz com quem eu me relacionava naquele momento. ELe não dormiu comigo ali, nossa única demonstração de afeto foi aquela. Mas no dia seguinte, ouvi o homem discutir com a esposa. Dizia que não gostaria de ter um cego gay em seu estabelecimento. Ouvi a conversa do meu quarto, e antes que ele pudesse me expulsar, recolhi minhas coisas e sai.

Preconceitos se manifestam de diferentes maneiras: aqueles contra as pessoas com deficiência são cercados de falsa compreensão ou de evidente pena. Aqueles contra homossexuais são dotados de agressividade, condenação.

Tentam nos fazer sentir culpa por quem somos. É muito cruel. Somos o que somos e não há culpados.”

Edgard Jacques Fernandes, cego, gay, ator e consultor em audiodescrição.


GATA DE RODAS

Ivone no 2° Piquenique LGBT para pessoas com deficiência

lvone de Oliveira, 48 anos, é figura conhecida no univer­ so das pessoas com deficiência. Autora do blog Gata de Rodas, criado em 2012, é graduada em contabilidade, cadei­ rante devido à poliomielite (aos seis meses de idade) e bis­ sexual. “A intenção do blog era ser um diário pessoal. Fazia registros da minha história e do meu dia a dia como mulher cadeirante. Depois, senti a necessidade de saber mais sobre a vivência de outras pessoas com deficiência, principalmen­ te porque eu só tive contato com outras pessoas com defici­ ência na fase adulta”, conta lvone.

Interagir com outras pessoas com deficiência a fez des­ cobrir que havia muito para se compartilhar e aprender. “Percebi que as nossas histórias de vida eram tão parecidas que se confundiam em muitos aspectos, seja pelas barreiras impostas pela família, que nos trata como  o ‘eterno bebê da mamãe’, passando a ideia de que somos os coitadinhos, incapazes e intocáveis, seja também pela sociedade capa­ citista que não facilita em nada a acessibilidade e a inclusão social da pessoa com deficiência”.

Sobre como foi quando descobriu sua bissexualidade, lvone é taxativa: “Tudo aconteceu gradativamente. O primei­ ro passo ao me descobrir bissexual foi ser feliz. Porque a sexualidade é de foro íntimo, ninguém vai vivê-la por mim”. Ela diz nunca  ter sentido  necessidade  de contar  à  famí­ lia ou aos amigos  de maneira  formalizada. “Minha bisse­ xualidade não é pecado  para eu ter que confessá-la para quem quer que seja. Hoje eu sou senhora do meu destino”.

Para a psicóloga  da UnB, Tatiana Lionço,  “Existe um preconceito duplo e paradoxal sobre a sexualidade da pes­ soa com deficiência: ou ela é nula, ou excessiva. Ou ela é ausente, ou a menor  expressão  do  desejo é  lida social­ mente como imoral, perversa, fora da ordem”. A professora de Brasília ainda completa:  “Acredito que o grande desafio seja as pessoas com deficiência conviverem com outras pessoas  com  ou sem deficiência que as considerem  em todas as suas potencialidades,  inclusive a do flerte, do ena­ moramento,  da paixão e do desejo sexual. Elas têm que encontrar  pessoas  que as respeitem  e que não tenham medo de seu corpo,  mas sim curiosidade,  interesse e cui­dado com esse contato físico e emocional”.

Ao manifestar a bissexualidade, lvone naturalmente se envolveu com o meio LGBT, indo, pela primeira vez, à Para­ da do Orgulho Gay no ano passado. Ao constatar a falta de acessibilidade para o cadeirante, entrou em contato com a Associação da Parada do Orgulho Gay de São Paulo (APO­ GLBT), e foi convidada por eles a participar de suas reuniões quinzenais, em que a diretoria criou o Grupo  de Trabalho Pessoas com Deficiência.”Neste ano de 2017, pela primeira vez na história, a Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, a maior do mundo, foi aberta por pessoas com deficiência, e, recentemente, o 2° Piquenique LGBTs com Deficiência foi o evento de abertura da 1• Conferência Internacional da Diver­ sidade e Turismo LGBTQ [O de Queer, palavra utilizada para designar pessoas que não seguem o modelo de heterosse­ xualidade ou do binarismo de gênero]”, relata.

O piquenique  – em parceria com a APOGLBT, GT Jo­vem, Menino Gay e o Gata de Rodas- contou com o apoio da Secretaria Municipal  da Pessoa com deficiência de São Paulo, da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo e da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania. “O propó­ sito era o de ocupar um espaço público para dar visibilida­ de à pessoa com deficiência LGBTQ, criando um ambiente dinâmico,  divertido e descontraído no qual essas pessoas pudessem ser elas mesmas em interação com as pessoas sem deficiência”, explica lvone.


“A pessoa com deficiência ainda luta pelo reconhecimento de ser simplesmente “homem” ou “mulher”. Basta observar, por exemplo, que o banheiro destinado a nós, na maioria das vezes, é unissex.

A mulher com deficiência bissexual sempre existiu, mas a falta de informação e representatividade somada ao fato de que muitas pessoas com deficiência dependem da ajuda de familiares e amigos preconceituosos para exercer as suas atividades, deixa muitas sem alternativa, a não ser ficar no “armário”. Acredito que, quando eu sair com uma namorada em público, a primeira impressão que todos terão é a de que ela é a minha cuidadora. Se rolar um beijo, imagine: ou vou ser taxada de deficiente safada, objeto de fetiche e pervertida ou vão achar que estou sendo abusada. A sexualidade da pessoa com deficiência é até garantida pela sexualidade da pessoa com deficiência é até garantida pela Lei Brasileira de Inclusão (LBI): para nós, exercê-la, mais do que uma questão de necessidade, é também um direito. O que mais me motivou a articular a presença das pessoas com deficiência LGBTs na Parada Gay e no piquenique foi a vontade de quebrar os preconceitos que permeiam a sexualidade, a orientação sexual e a identidade de gênero da pessoa com deficiência.

Ao dar visibilidade às pessoas com deficiência LGBTQs, mostramos para a sociedade que existimos e resistimos”.

Ivone de Oliveira, cadeirante, bissexual e autora do blog Gata de Rodas.


POIS É, EXISTIMOS

Pessoas sem representatividade que passam a aparecer, a tomar seus lugares no mundo,  mesmo que timidamente, incomodam a sociedade. Isso porque elas desestabilizam a representação hegemônica sobre o que é o humano, colo­ cando em questão as verdades preconcebidas  sobre como nós deveríamos ser, como bem explica a psicóloga Tatiana Lionço,  da UnB. “A visibilidade da pessoa com  deficiência incomoda,  sobretudo quando essa visibilidade desconstrói a ideia de dependência e insuficiência, pois escancara para as pessoas que ainda não apresentam uma deficiência seus próprios preconceitos”. Alon Maurício, que agora em novem­ bro coordena mais um evento na UFBA, que abordará a se­ xualidade da pessoa com deficiência, lembra que, mais do que a ausência de representatividade, essas pessoas são historicamente invisibilizadas, oprimidas e caladas pela Igre­ ja, pelo Estado e pela sociedade.

Ivone na manifestação da Cura Gay

Ivone, autora do blog Gata de Rodas: militância nos segmentos LGBT e da pessoa com deficiência tem feito diferença em sua vida e na de outras pessoas.

“O incômodo surge a partir das rupturas que tais pesso­as ou grupos causam. São como um vulcão adormecido  e submerso, que sempre esteve lá e todos sabem disso, até o dia em que ele acorda, entra em erupção e segue destruindo tudo o que encontra pela frente, e se não destruir, ao menos deixa que sua fumaça mude aquele cenário. Assim ocorre com os grupos marginalizados- mulheres, negros, pessoas com deficiência, LGBTs etc: a partir do momento que essa diversidade ganha força na luta por respeito e reconheci­ mento de direitos básicos, o incômodo  da sociedade tradi­ cional, religiosa e elitista aumenta”.

E INFORMAÇÃO É PRIMORDIAL

Se o preconceito é fruto da ignorância,  conhecimento é essencial  para tingir esse cenário  com cores mais sua­ ves. Raramente é respeitado  aquilo que não é compreen­ dido e digerido. Para isso, então, é preciso informar-se, conhecer,  despir-se  dos pré-conceitos e vencer barreiras atitudinais. A família tem um papel muito importante nessa jornada,  no entanto,  muitas  carecem  da  disposição  em aceitar as diferenças.

“É preciso considerar  que nenhum pai ou mãe idealiza ter um filho com  deficiência. Esperam um bebê  saudável que enxergue, ouça,  fale e ande.  Quando  o bebê  nasce com  alguma  deficiência, a família passa  por  um  período de reelaboração [leia a matéria de capa da Revista D+ 16, sobre filhos com deficiência], e pode ser que muitas vezes não consigam ressignificar esse filho”, explica Alon Maurício. “Se mais tarde esse sujeito se assume LGBT, é mais um processo que a família vai ter que elaborar. O que a pessoa LGBT com  deficiência pode  fazer vai depender  da família que tem e do acesso ao diálogo. Começar  com uma con­versa sincera é sempre um bom começo”, completa ele.

Para a psicóloga  da UFRJ Mônica Pereira dos Santos, a mobilização como grupo social também é importante. “A união faz a força. Lutar sozinho remete a resultados modes­ tos e, por vezes, insatisfatórios. A luta coletiva é sempre mais eficaz, pois o agrupamento identitário fortalece cada sujei­ to ao mostrar que não são os únicos em dada condição”.


O QUE  É ORIENTAÇÃO SEXUAL?

Esse termo  diz respeito à forma  como nos sentimos em relação à afetividade e sexualidade. Os conceitos de bissexualidade, heterossexualidade, homossexualidade e assexualidade são os tipos de orientação sexual. Esse conceito também é conhecido como orientação afetivo­ sexual, uma vez que não diz respeito apenas a sexo.

HETEROSSEXUAIS: Pessoas que têm sentimentos  afetivos e atração sexual por outras com  identidade de gênero diferente.  Ou  seja, alguém  de identidade de gênero feminina que se relacione com  uma pessoa de identidade de gênero masculina.

HOMOSSEXUAIS: Pessoas que nutrem sentimentos  afetivos e atração sexual por pessoas com  a mesma  identidade de gênero. Ou  seja, alguém  de identidade de gênero feminina que se relacione com outra pessoa de identidade de gênero feminina, ou uma pessoa de identidade de gênero masculina que se relacione com outra de identidade de gênero masculina.

Note que tanto  faz se a pessoa é trans ou não, o que importa para esse conceito é a identidade de gênero, e não o sexo biológico. O que, não impede  que a pessoa sinta-se atraída exclusivamente por pessoas cisgêneras.

LÉSBICAS: Mulheres que sentem atração física e sentimentos  de amor  apenas por outras mulheres. As lésbicas são homossexuais.

GAYS: Homens que sentem atração física e sentimentos de amor apenas por outros  homens. Os gays são homossexuais.

BISSEXUAIS: Pessoas que se sentem atraídas afetiva e sexualmente tanto por pessoas de identidade de gênero igual quanto por pessoas de identidade de gênero diferente.

ASSEXUAIS: Pessoas assexuais não se sentem atraídas sexualmente por outras, seja lá qual for a identidade de gênero  que tenham.


O QUE É IDENTIDADE DE GÊNERO?

Identidade de gênero se relaciona com a forma como a pessoa se reconhece dentro dos padrões de gênero: feminino e masculino. Esses valores são estabelecidos socialmente e variam de cultura para cultura. Há, ainda, quem não se identifique com nenhum desses dois gêneros, os chamados agêneros; e quem se identifique com ambos, os intergêneros, andróginos, bigêneros e crossdresser.

CISGÊNERO: Pessoa que se identifica com o gênero igual ao do sexo de nascimento.

TRANSGÊNERO: Termo genérico que vale para qualquer pessoa que se identifique com um gênero diferente ao do sexo de nascimento. Por exemplo, transexuais e travestis.


Alon Maurício 1 Mônica Pereira 2 Tatiana Lionço 1

Tatiana Lionço, da UnB; Alon Maurício, da UFBA, e Mônica Pereira, da UFRJ: envolvimento cotidiano com a reflexão, o debate e a luta pela inclusão das minorias.


PESSOAS COM DEFICIÊNCIA E IDENTIDADE DE GÊNERO NO DISQUE 100

O Departamento de Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos recebe, examina e encaminha denúncias e reclamações e atua na resolução de tensões e conflitos sociais que envolvam violações de direitos humanos. O Disque 100 – Disque Direitos Humanos, de acordo com os números informados à Revista D+ por meio da assessoria de comunicação do Ministério dos Direitos Humanos, em Brasília, recebeu ligações de pessoas com deficiência com as seguintes identificações de gênero em 2017, até o fechamento desta edição:

1 = Transexual
6 = Lésbica
18 = Bissexual
27 = Gay
1569 = Heterossexual
4658 = Não informado

Total = 6279


Socialmente falando, é mandatário conceber políticas afirmativas, leis e ampla discussão contra a violência às pes­ soas LGBTs, como explica Alon: “Hoje a comunidade LGBT tem certa medida  de representatividade, mas ainda não é suficiente. Já as pessoas com deficiência LGBTs ainda es­ tão saindo da invisibilidade aos poucos,  por meio de uma publicação  como  esta, de seminários, encontros,  debates nas escolas e outras ações. É assim que dizem ‘(r)existimos e estamos aqui”‘.

Carilissa e Edgard contaram com uma postura familiar que os ajudou a construírem sua identidade com segurança, autoconfiança e independência. O mesmo já não aconteceu com Helenne e lvone que, a mercê do autodescobrimento e das lições que o sofrimento impõe, desenharam seu modo de ser e estar no mundo com mais dificuldades. Essas his­ tórias provam o quanto a rede de apoio que temos ou dei­ xamos de ter estabelece, de muitos modos, a vida que está prestes a se desenrolar a nossa frente.

Tatiana  Lionço acredita que o mundo poderia  ser um  lugar  melhor para se viver a partir do momento em que as pessoas deixassem de se interessar em conviver apenas com outras pessoas com  as  quais  se  compar­ tilha semelhança. Sobre como podemos caminhar para amenizar o  desconhecimento, a ignorância e o precon­ ceito, termino com uma frase dela: “Convivendo, mul­tiplicando vozes e, sobretudo, desenvolvendo   interes­ se sincero pelas pessoas que nós não somos”.

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