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15 Universo Cultural
Dia 9 de novembro de 2017 | Por Revista D+ | Sobre Edição 17
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32 filmes com a temática deficiência foram destaque no Festival Assim Vivemos, exibido no Centro Cultural Banco do Brasil no mês de setembro. O saldo? Reflexão, autoconhecimento e protagonismo da pessoa com deficiência.

Ao entrar no prédio de esquina, construído em 1901 no centro de São Paulo, deparamos com a arquitetura clássica no início do século passado. As paredes que já abrigaram o primeiro Banco do Brasil na capital paulistana há quase 20 anos transformaram-se no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), onde recebem obras, filmes e exposições de todo tipo.

No mês de setembro, o CCBB abriu suas portas para a 8ª edição do Assim Vivemos – Festival Internacional de Filmes sobre Deficiência. Os filmes, curtas e documentários trazem a pessoa com deficiência para o primeiro plano, protagonistas das histórias, que não os tratam nem de longe como heróis ou vilões: são histórias que nos fazem conhecer, rir ou paralisar.

O documentário Vida e Atrofia abordou a vida do pequeno Miles, que tem Atrofia Muscular Espinhal (AME), uma doença neuromuscular que causa perda muscular progressiva. O documentário trouxe dados populacionais, informações sobre a causa genética, entre tantas outras especificações da doença, além de acompanhar o dia a dia da criança, entremeado por depoimentos dos pais Nikki e Tony McIntosh.

Uma frase que o pequeno Miles diz no filme é o bastante para comover e entender o quão difícil é a busca por medicamentos. Ele faz parte deum grupo de pessoas que faz tratamento experimental genético e recebe diretamente em sua medula uma injeção com o medicamento. Além disso, é parte da rotina fortalecer incansavelmente  suas pernas.

FESTIVAL ASSIM VIVEMOS Eu sou Jeeja, de Swati Chakraborty

O documentário indiano Eu sou Jeeja traz Jeeja Ghost, líder ativista pelos direitos dos que têm paralisia cerebral na Índia.

“Mamãe, agora eu preciso chorar!”, disse Miles, já exausto de andar com o auxílio de um andador. Sua mãe apenas abaixou ao seu lado e ofereceu um abraço, mas pediu que ele continuasse em frente. A recompensa estava ao fim do corredor, uma moeda de chocolate.

“Representar o ser humano, em suas diversas formas de estar no mundo é o que essas produções querem fazer. Por isso o festival se chama Assim Vivemos, na primeira pessoa do plural: porque as pessoas retratadas representam todos nós, seres humanos, em nossas mais variadas formas e condições”, explica Lara Pozzobon, diretora e curadora do Festival desde sua primeira edição.

FESTIVAL ASSIM VIVEMOS - Dois Mundos, de Maciej Adamek

Dois Mundos, da Polônia, traz a história de Laura, garota de 12 anos, ouvinte, que tem pais surdos.

Ao todo foram 32 filmes selecionados de 18 países para fazer parte desse festival, que é realizado a cada dois anos e é o principal evento que celebra a inclusão cultural no Brasil. Os documentários são inéditos e trazem histórias protagonizadas por pessoas com diversas deficiências, como: síndrome de Down, autismo, paralisia cerebral, atrofia muscular espinhal, deficiência física, visual, auditiva e intelectual.

“A receptividade das pessoas é sempre calorosa e muita gente assiste a todas as sessões do festival, de tanto que admiram e se sentem energizadas com as histórias mostradas nos filmes”, conta a diretora.

FESTIVAL ASSIM VIVEMOS Luiza 2 (1)

Luiza, o curta brasileiro que apresenta as relações de uma garota com deficiência intelectual.


E O OSAR GOES TO…

O Festival ainda premia as melhores produções e entre as cinco categorias, um filme brasileiro foi prestigiado. Confira os destaques desta edição:

PRÊMIO RELACIONAMENTO
Luiza, Brasil, com direção de Caio Baú
O curta brasileiro apresenta o relacionamento delicado entre uma garota com deficiência intelectual e o universo que a rodeia, tendo a sexualidade como um guia para abordar questões como preconceito, relacionamento, entre pais e filhos, superproteção familiar, autonomia, diferenças e amor.

PRÊMIO POESIA
Sobre Arif, Turquia, com direção de Hasan Kalender
Da Turquia, retrata a história de Arif, que tem síndrome de Down, trabalha em um antiquário e vive em um mundo imaginário.

PRÊMIO VIDA
Filho do homem, Rússia, com direção de Sergey Pozdnyakov
Pavel, que começou sua vida em um orfanato, não perdeu a esperança, mesmo que momentos de desespero o assombrem vez por outra.

PRÊMIO REALIDADE
Dentro de mim, Tailândia, com direção de Sophon Shimjinda
Sobre Cherry, uma mulher transgênero com deficiência que, além de desejar o amor de um homem, anseia pelo amor de sua mãe e de seu pai

PRÊMIO EMPODERAMENTO
Eu sou Jeeja, Índia, com direção de Swati Chakrabort
Fala sobre a indiana Jeeja Ghost, líder ativista pelos direitos dos que têm paralisia cerebral na Índia.

Outras informações: www.assimvivemos.com.br


PARA ALÉM DAS HISTÓRIAS

FESTIVAL ASSIM VIVEMOS Sobre Arif, de Hasan Kalender_baixa_0

O filme turco Sobre Arif é delicado ao retratar a vida do rapaz com síndrome de Down que trabalha em um antiquário.

Além de instigar uma discussão estética cinematográfica, que agrega muito na formação cultural, o festival ainda propicia debates com os temas dos filmes e traz à tona questões fundamentais e urgentes relacionadas às pessoas com deficiência. O festival exibe também filmes de ficção e animações.

As sessões deste ano já passaram por Rio de Janeiro e Brasília e suas exibições foram encerradas em São Paulo. Lara revela que sempre houve projetos para levar o Assim Vivemos para outros estados e cidades, mas que existe muita resistência das empresas em patrocinar. “Apenas em 2010 e 2012 obtivemos apoio por meio de um edital público da Petrobrás para produzir o festival em outras cidades, como Belo Horizonte, Porto Alegre, Pelotas e Santa Cruz do Sul”, afirma. E revela: “O que não há é interesse das empresas em patrocinar essa circulação do festival. Ele foi apresentado ao longo de todos esses anos em dezenas de empresas e, mesmo com aprovação na Lei Rouanet para captação via renúncia fiscal, não obteve outros patrocínios além do citado e do patrocínio principal, do Banco do Brasil, por meio do edital público do CCBB. É inexplicável!”.

Oferecendo em todas as sessões acessibilidade para cadeirantes, audiodescrição e catálogos em braile para pessoas cegas; Legendagem para Surdos e Ensurdecidos (LSE) nos filmes e interpretação em Libras nos debates para as pessoas surdas, o festival dissemina inclusão e respeito para seus espectadores. “O Assim Vivemos foi o primeiro evento cultural brasileiro a oferecer todas as acessibilidades para pessoas com deficiência e a desenvolver e introduzir no Brasil o recurso da audiodescrição”, afirma Luis Fernando Spaziani, gerente de Programação do CCBB São Paulo.

Os curadores Lara e Gustavo Acioli acreditam que o evento cumpre duas funções: “Ao mesmo tempo em que nos leva a refletir sobre aspectos fundamentais da vida em sociedade e do autoconhecimento, também nos faz refletir sobre o nosso país, por meio da comparação com as mais diversas culturas e sociedades representadas na nossa seleção”.

Lara ainda comenta sobre a importância dessa produção audiovisual, onde o protagonismo da pessoa com deficiência é retratado de maneira a colocá-la imersa na sociedade, tirando-a de cenários estigmatizados ou em meio a estereótipos. “Com certeza, isso evoluiu muito no Brasil nesses 14 anos de Assim Vivemos. A abordagem dos personagens com deficiência nos documentários brasileiros ficou muito mais próxima e mais reflexiva. Acreditamos que o festival tenha estimulado o aumento da consciência sobre o tema e o crescimento do número de produções sobre pessoas com deficiência”, afirma.

Pela primeira vez em sua história, o festival pode sair do Brasil. Lara conta, ainda sem certeza, que já há um diálogo com um produtor de Portugal para levar o festival para o país em abril de 2018. Nós torcemos para que isso se realize, e que ele consiga chegar a quantos lugares forem possíveis!

 

 

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