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entrevista Renata Lins

Cibele de Oliveira Fernandes tem 37 anos e mora em Alvorada, no Rio Grande do Sul. É autônoma, trabalha com venda de cortinas e persianas. Ela é mãe de Aline, 20 anos, e de Getúlio, 11. Em entrevista à Revista D+, conta como descobriu a paralisia do filho mais novo e como tem lidado com as dificuldades e descobertas de ser mãe de uma criança com deficiência.

 

Revista D+: Conte um pouco sobre a sua gravidez. Foi planejada?

Cibele de Oliveira Fernandes: A Aline tinha 9 anos e sempre pedia um irmão, mas eu estava trabalhando e estudando. Certo dia eu tive um mal estar e fui fazer uns exames. Foi então que descobri estar grávida do Getúlio, de surpresa. Fiquei muito feliz também!

Fiz todos os exames e o pré-natal e, a princípio, estava tudo correto. Quando eu estava com cinco meses de gestação minha bolsa rompeu e eu fui internada para tentar segurar o bebê ao máximo. Só que aos sete meses de gestação, o Getúlio nasceu prematuro. Foi feita toda a medicação, tudo o que precisava para que ele nascesse saudável. E o Getúlio nasceu respirando, saudável, com peso, porém, como era prematuro, precisou ficar internado. Disseram-me que ele tinha tido uma parada respiratória à noite, mas o médico não entrou em detalhes. Disse que estava tudo sob controle e que não tinha afetado nada.

comp1Até então, Getúlio era uma criança normal em casa. Mas o tempo passou: um ano, dois anos e nada de caminhar nem equilibrar o tronco. Ele ficava sentadinho no carrinho, caidinho.

 

O que vocês fizeram?

Cibele: Quando ele tinha uns dois anos, procuramos uma neurologista no posto, que nos deu o diagnóstico: paralisia cerebral. Nosso mundo caiu. Eu e meu marido não sabíamos o que fazer. Pensávamos: “O que a gente vai fazer? Como é que a gente negligenciou isso tanto tempo?”. Como a gente podia imaginar, também? Eram muitas dúvidas ao mesmo tempo. Mas aí a gente conversou com a doutora para saber o que precisávamos fazer dali em diante.

Ela nos falou sobre a AACD e disse para nos inscrevermos em uma lista de espera. Depois que ele começou lá, a evolução foi muito rápida. Ele sempre fez as terapias com muito entusiasmo e com muita vontade de melhorar. Getúlio diz: “Mãe, lá fica minha segunda família”.

Paralelamente à AACD, eu e meu esposo começamos a criar situações em casa: colocamos hastes para ele segurar e jogar bola, porque ele gostava muito de futebol, mas não conseguia. Ele começou a ver que podia ficar um pouquinho mais em pé, escorado. O futebol foi uma paixão e ele disse: “Eu vou conseguir ficar em pé e chutar a bola”.comp2

Certo dia, ele estava jogando nos fundos, caindo e buscando a bola, engatinhando e voltando e, de repente, ele se debruçou em cima da bola. Aí foi tentando até conseguir ficar de pé. Essa cena foi a mais linda que eu me lembro até hoje.

 

Como ele se tornou a criança símbolo do Teleton?

Cibele: Tudo começou com um programa chamado Bota do mundo. É um campeonato de futebol no qual são convidados jogadores e crianças cadeirantes para colocar uma botinha e ficar de pé. A criança coloca a botinha junto com o pai e chuta a bola, de pé, pela primeira vez. E o Getúlio foi participar pra ver o pessoal.

Só que o garotinho que ia entrar faltou e ele entrou no lugar. Dali em diante ele participou de todas as botas do mundo. Ele se inscreveu em uma promoção e foi sorteado para entrar com os jogadores na Copa do Mundo. Entrou com o Manoel Neuer, que é o ídolo dele.

O jeito que o Getúlio lida com a vida é maravilhoso, mesmo com as nossas dificuldades, ele se supera todos os dias. Eu não me queixo, sempre digo: fui abençoada por Deus! Ele me deu a coisa mais linda e mais rica da minha vida.

 

Qual o programa favorito de vocês dois?

Cibele: Ele adora ir ao cinema, gosta de assistir a documentários, de ler. Saímos para comer alguma coisa e ir ao parque para ele jogar com os amigos. Domingo é o dia em que ele descansa.

 

comp3O que você espera do Getúlio? Quais são suas perspectivas como mãe?

Cibele: Logo que descobrimos a paralisia que Getúlio tem, meu marido e eu conversamos muito tempo sobre isso, e a gente pensou assim: bom, se nosso filho tem essas limitações, vamos fazer de tudo para facilitar a vida dele e vamos nos organizar para que ele tenha um futuro totalmente independente. Porque amanhã ou depois, nós não vamos estar aqui para ajudá-lo e ele precisará ser independente e forte.

Ele faz aula de futebol, basquete, violão, inglês e alemão. A tudo que o Getúlio pergunta: “Mãe, posso fazer?”, eu respondo: pode! Eu dou o direito de ele fazer tudo o que ele quer para que, amanhã, quando eu e meu marido não estivermos aqui, ele possa ter total desenvoltura.

Ele só tem comprometida a parte física, a intelectual é perfeita. Ele diz: “Olha, eu quero ser um jornalista, eu quero ser um locutor de rádio, eu quero ser um cantor”. E eu digo: filho, tu podes ser tudo que quiseres. Tu tens todas as ferramentas. Então, eu estou bem tranquila. Porque a gente pensou nisso e é o que fazemos todos os dias para que, futuramente, ele seja uma pessoa bem-sucedida.


 

 

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