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entrevista Mariana Santos   texto Taís Lambert   foto Larcelo Spatafora
 

Revista D+: De que partes você lembra de seu acidente em 2009?

Douglas Jericó: Eu senti muita dor. Quando eu bati no chão, além do choque que durou um tempo, foi como se eu tivesse levado uma porrada muito forte. Eu vi branco, vi o universo, vi roxo… e quando eu abri os olhos, não mexia mais nada.

Fiquei jogado para fora do meu muro e só pensava: “Respira! Respira!”. Lembro-me de passar uma bicicleta, depois um carro. O condomínio ficava atrás de uma rodovia. Alguém parou e falou: “Um bêbado!”, e eu pensei: “Estou salvo” e desmaiei.

Disseram-me que eu falava no postinho de saúde, no helicóptero, no hospital, mas eu não me lembro de nada. Eu fiquei seis dias em coma induzido. Colocaram um tubo na minha boca e não se pode ficar mais de oito dias com ele: tem que fazer uma traqueostomia. Quando foram fazer isso é que me acordaram.direita_frase_milena

 

Você já disse que nunca desanimou e que sempre pensou em quantas coisas ainda poderia descobrir. Que descobertas você fez, por exemplo, com relação ao amor e à sua sexualidade?

Douglas: Eu perdi 99,9%, não posso mais tocar, nem fazer carinho, nada. Tudo funciona perfeitamente, mas não tenho o controle. Então a fantasia, dentro da cabeça, fica muito forte. A sexualidade aumenta. Há sete anos eu fiquei tetraplégico e há sete anos isso acontece.

Eu ainda estou descobrindo a minha sexualidade. Existe o prazer, o orgasmo, mas totalmente diferente. Não é nada físico, é mental. E a mente é muito mais poderosa, fica incontrolável. Muitas vezes você acaba incomodando a outra pessoa. Às vezes, passo o dia inteiro tendo orgasmo.  Fico perturbado. Pode virar um vício, prejudica o relacionamento, mas ajuda muito em outros sentidos.

 

Como você se sente em relação a isso?

Douglas: Esse universo de cadeirante é muito complicado. Existe uma tristeza que ronda o tempo inteiro. A minha filosofia é ignorá-la, porque eu sei que essa tristeza, a parte ruim de ter perdido as coisas que eu conseguia fazer até os 27 anos e as coisas que eu nem sequer fiz, quando vem, me perturba e me derruba.

Então eu costumo dizer que ser cadeirante é meio “nível 2”: você olha as outras pessoas e tem uma inveja natural, não adianta negar. Eu olho todos vocês e penso como a vida de vocês é fácil. Se eu quero pegar um livro, eu tenho que pedir para a Milena; se eu quero um sanduíche ou sexo, é tudo a mesma coisa. Todas as situações são assim. Agora eu penso muito mais rápido, a mente é muito rápida. Ela trabalha muito mais do que a da pessoa que tem a mão.

 

E quanto à autoimagem, depois do acidente você sentiu que a maneira como se enxergava mudou?

Não. Todos os defeitos continuam os mesmos. Eu era muito vaidoso e todo cadeirante fica com uma barriga. Então, se eu emagreço muito, fico com os braços fininhos e a barriga, porque não tem mais musculatura! Eu nunca me olho no espelho, só quando entro no elevador. Não consigo me olhar como antes. Eu ficava muito mais tempo na frente do espelho. No meu quarto não tem; no banheiro, ele é mais alto; eu passo três, quatro meses sem me ver. Quem mexe no meu cabelo, quem escova meus dentes, faz minha barba é ela. Eu me vejo mais por foto. Não gosto de ficar me olhando no espelho, porque sempre eu me vejo na mesma posição, tudo é meio sem graça.

Por exemplo, eu tenho uma cadeira que me coloca em pé, mas ficar em pé sem andar… As pessoas perguntam: “Mas você não gosta de ficar em pé?” Não. Não tem graça nenhuma. Eu fico zonzo porque o sangue circula melhor, é bom para a urina, é bom para os ossos, mas não é legal. Fico mais alto, só. Andar de cadeira motorizada é legal? Não. Legal é tocar violão, é o que eu mais amo no mundo.

esquerda_frase_dodiDepois do acidente, você se sentiu mais cobrado por você mesmo e pela sociedade para provar sua masculinidade?

Douglas: Não, porque ninguém espera nada de mim. As pessoas pensam que eu não tenho ereção, por exemplo. As pessoas não sabem que eu posso ter filho, elas veem um tetraplégico e até a palavra é feia.

 

Milena Possidonio: o Dôdi costuma dizer que ele não é homem nem mulher. Ele é cadeirante. Você já reparou em banheiro de shopping? Tem o banheiro masculino, o feminino e o de cadeirante.  E de fato a sociedade não cobra um papel de homem dele, cobra um papel de cadeirante.

 

Quais são as maiores qualidades do Douglas?

Milena: Uma das maiores qualidades dele, mesmo lidando com todas as tempestades, é a vontade de viver. Chega a ser irritante, porque ele quer tudo. Ele não quer se limitar, ele não quer tomar todas as decisões a partir da deficiência dele. Ele quer fazer tudo. É isso o que o mantém feliz: o fato de ele não pensar a partir da tetraplegia. Ele pensa a partir de quem ele é, das coisas que ele quer. E, no fim, para mim acaba sendo mais um detalhe do dia a dia, não é o que o define.

Ele é muito generoso, gosta de me agradar, de cuidar. Quando está nervoso, ele é um demônio! Só os pais dele e eu conhecemos o lado ruim dele. Mas quando está bem, ele não mede esforços, gosta de me elogiar, encorajar. Está sempre disposto com um sorriso, quer ver todo mundo feliz. Ele gosta de ver todo mundo satisfeito perto dele.

 

A sociedade associa o relacionamento com uma pessoa sem deficiência como uma espécie de “vitória”, como se a deficiência fosse um fardo e namorar ou casar com uma pessoa nessa condição fosse um ato de extrema bondade. Você acredita que as pessoas realmente pensam assim? Por quê?

Milena: Eu concordo.  Em um cruzeiro, nossa primeira viagem juntos sozinhos, eu ouvi quatro mulheres falando no banheiro feminino: “Nossa, ele está com uma menina que é namorada!”. A outra disse: “É namorada? Não é irmã? Tem certeza?”. “Nossa, que santa essa menina, não?”.

Daí outra entrou na conversa: “Vocês precisam ver. Tudo é ele em primeiro lugar. Ela faz tudo para ele. Essa menina é uma santa mesmo”. Eu fiquei quieta, saí do banheiro e fiquei pensando sobre aquilo. Eu não sou santa. Eu sou quem eu sempre fui. Eu só preciso, em alguns momentos, redefinir as prioridades, mas isso não faz de mim uma santa.

E baseado em quê alguém pode dizer isso? Isso é cuidado, não quer dizer que eu só estou pensando nele. Eu presto atenção e sei se ele está precisando de alguma coisa ou não. É muito comum as pessoas se assustarem se eu digo que tenho um marido tetraplégico. É um relacionamento, uma troca. E isso me incomoda.

As pessoas me ignoram ou me santificam. Eu estou com ele porque ele tem um monte de qualidades, cuida de mim de muitas formas e eu também tenho isso para oferecer. É uma coisa que as pessoas poderiam começar a pensar, são escolhas, não é carma.

 

O que você acha que faz o relacionamento de vocês dar certo?

Douglas: Vontade de dar certo. Eu acho que é o que faz qualquer relacionamento ir adiante. Tem dia que é difícil, que desanima, cansa, mas se a vontade é que dê certo, a gente vai aprendendo, deixando o que não serve para trás.

Milena: Há muita dificuldade em relacionamentos, mas há muita coisa legal também. Você tem que decidir todos os dias se está disposto e então continuar. Acho que é isso que faz dar certo. Quando perde essa disposição, não adianta mais. E para manter essa disposição tem que fazer a manutenção no dia a dia. Se eu fizer algo que o magoe, por exemplo, é consertar e mudar de atitude.

 

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