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Dia 7 de setembro de 2016 | Por Revista D+ | Sobre Cursos, Feiras & Eventos e Notícias e Paralimpíada

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Texto em Português

Por Taís Lambert, do Rio de Janeiro1

 

Teatro com som imersivo, que faz a plateia – de pessoas cegas e videntes – sentir-se “dentro” da peça, como se fossem elas próprias os atores. Livros digitais em tom de cordel, com imagens audiodescritas, texto e Libras. Imersões no escuro que aludem à cegueira realizadas por executivos de empresas, com o intuito de viverem experiências que os façam superar medos e diferenças. Uma festa inclusiva: a Sencity, pensada para a pessoa surda, em que o chão vibra e o DJ não ouve.2

Esse turbilhão cultural de acessibilidade existe e está a pleno vapor: foi o que mostrou ontem à noite, aqui no Rio de Janeiro, o bate-papo Experiências Acessíveis, no IV Encontro Nacional de Acessibilidade Cultural – ENAC, realizado no Colégio Brasileiro de Altos Estudos – CBAE/UFRJ.

Participaram da mesa Fernando Botelho, consultor do Projeto Diálogos no Escuro; Carla Mauch, coordenadora da OSCIP Mais Diferenças; Paula Wenke, idealizadora do Teatro dos Sentidos; Leonardo Castilho, realizador da festa Sencity, do Museu de Arte Moderna (MAM/SP) e o mediador Jefferson Fernandes, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

A iniciativa é do Curso de  Especialização em Acessibilidade Cultural, desenvolvido pelo Departamento de Terapia Ocupacional e pelo Fórum de Ciência e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro, com o apoio do Ministério da Cultura.

Com legendagem em tempo real, tradução e interpretação em Libras e audiodescrição, a quarta edição do ENAC segue até o dia 10, próximo sábado, promovendo reflexões sobre a cidadania cultural da pessoa com deficiência.

 

Teatro dos Sentidos 1Teatro para ver com os sentidos

A carioca Paula Wenke, idealizadora do Teatro dos Sentidos, inicialmente criado para cegos, em que sons, aromas e texturas são parte da apresentação de sua técnica teatral pioneira, falou sobre a inclusão da pessoa com deficiência nas artes teatrais.

“O desejo de se comunicar com o outro é o que nos impulsiona a criar novas linguagens. Há milhões de pessoas com deficiência no Brasil: onde elas estão? Mal as vemos pelas ruas, elas precisam aparecer mais”, afirma Paula Wenke sobre sua técnica teatral e a visibilidade da pessoa com deficiência. “Está na hora de mostrar que elas existem muito mais do que parece que existem”.

O Teatro dos Sentidos apresenta a peça Feliz Ano Novo de Novo, em que videntes são vendados, de sexta a domingo, às 20h, no Teatro Maria Clara Machado, no Planetário da Gávea, no Rio de Janeiro. Um dos integrantes de sua trupe, o ator mineiro Oscar Capucho, cego, se apresentará hoje na cerimônia de abertura dos Jogos Paralímpicos.

 

Livros para você, para eles, para todos

Carla Mauch é coordenadora da OSCIP Mais Diferenças, que atua com a inclusão da pessoa com deficiência por meio de livros totalmente acessíveis. Ao tratar da construção da cultura inclusiva, salientou a importância de dedicar tempo. “A gente diz que nunca leu tanto, que nunca tivemos tanto acesso à informação. O que é verdade; mas também estamos desenvolvendo a lógica do ‘rápido’, do efêmero e descartável. Precisamos lentificar o tempo: sem isso não há democratização do acesso à cultura por todos os públicos”, disse Carla.

Durante o evento, ela mostrou no telão um pequeno trecho de um de seus livros inclusivos, com Libras, texto e audiodescrição. “Só para ficar em um exemplo, as pessoas com deficiência visual têo o direito de ir a uma livraria comprar um livro. Não podemos mais fazer de conta que é acessível, fazer de conta que estamos avançando. Precisa ser real”, pontuou.

No próximo domingo, dia 11, das 10h às 17h, Carla Mauch estará na Casa Brasil, no Píer Mauá, com suas obras falando de inclusão e acessibilidade. A Mais Diferenças lançará, às 16h, 25 livros acessíveis, em diferentes formatos.

 

No escuro, como os cegos

Fernando Botelho é presidente da F123 Consulting, que presta consultoria ao projeto Diálogos no Escuro, uma iniciativa que coloca videntes em experiências vividas no escuro. “Quando as pessoas olham para mim, uma parcela, automaticamente, sente pena por eu ser cego. A outra metade sente admiração por eu fazer o que faço sendo cego. Nenhuma das duas formas, obviamente, é a correta”, iniciou.

Com experiências em projetos inclusivos nos Estados Unidos, na Europa e em diversos países da África e América Latina, o empreendedor social lançou no mês passado uma série de workshops que ajudam executivos a melhorarem sua liderança e enfrentarem desafios no ambiente de trabalho e em equipe a partir de experiências no claro e no breu total.

“O que é mais interessante e o que mais importa no Diálogos no Escuro não é a apresentação do que é a cegueira. O maior impacto é o que a pessoa aprende de si mesma. Das perspectivas de enxergar outro potencial, outras capacidades que ela tem e desconhece”, conta Fernando Botelho.

Com o objetivo do desenvolvimento pessoal, Diálogos no Escuro propõe olhar a realidade sob outro ponto de vista, o da escuridão. “Algumas pessoas ficam com medo e outras até em pânico. Mas quando saem da experiência, é sempre com a percepção de quem são muito mais capazes de se desenvolver no escuro do que jamais imaginaram”, complementa. E finaliza: “As pessoas subestimam sua própria capacidade como ser humano, sua capacidade de se adaptar, de crescer e de aprender”.

 

Sencity: a batida da pele e do coraçãoÚltima Sencity no MAM

A festa é da Holanda – criada pela organização Skyway Foundation – e foi realizada pela primeira vez no Brasil no Museu de Arte Moderna, o MAM, de São Paulo. Agora, em arranjo entre o MAM e a Universidade Federal do Rio de Janeiro, a festa para os surdos aocntecerá pela primeira vez aqui no Rio de Janeiro, no Colégio Brasileiro de Altos Estudos, no próximo sábado, dia 10, das 17h às 23h.

Leonardo Castilho, surdo, está à frente da empreitada e, no bate-papo do ENAC, prometeu uma incrível experiência a quem participar da festa. Em Libras, Leo contou um pouco do que está sendo preparado: “O tapete de madeira vibrará de acordo com a música, aromas serão lançados com a ajuda de ventiladores, a comida será para despertar o paladar… A Sencity é um desafio!”.

A festa contará com apresentações de Os Batuqueiros do Silêncio, de Pernambuco; da BelaBatuQada, de Donatinho, de Wagner José e seu Bando e Cancioneiros do IPUB. Todos os surdos e ouvintes estão convidados: a interculturalidade é o ponto alto da festa.


Onde: Av. Rui Barbosa, 762, Flamengo, Rio de Janeiro

 

 

 

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