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EMANOELE FREITAS E SEU FILHO EROS MICAEL - 2
Dia 1 de julho de 2020 | Por Jessica Carecho | Sobre Notícias

 

 

Por Emanoele Freitas*

 

Desde março desse ano de acordo com a UNESCO mais de 776 milhões de alunos no

mundo deixaram de ir à escola devido a pandemia do COVI 19. Esse impacto logo num

primeiro momento causou um verdadeiro colapso no sistema de educação e, claro, em

milhões de famílias ao redor do mundo, principalmente nas famílias com crianças

autistas. Toda essa mudança trouxe uma nova realidade e diversos

questionamentos. O mais preocupante de todos com certeza foi; como vou ensinar meu

filho autista em casa? Colocando em números de alunos com autismo na rede

educacional que, seguindo a base da OMS é de 1% da população (a OMS estima que o

número de autistas é de 2% da população, sendo esse número 1% em idade escolar)

estaríamos falando aí em aproximadamente mais de 7 milhões de alunos autistas fora

das salas de aula.

Os pais precisaram se adequar a essa realidade. Não era apenas uma mudança educacional, mas também uma mudança em toda a rotina que a criança ou jovem com autismo já estava se adequando. Sim, muitos autistas necessitam dessa rotina para poderem se regular emocionalmente e fisicamente e esse impacto trouxe algumas

dificuldades. Nos relatos principais dos pais que recebi, algumas foram mais especificas:

A não aceitação na execução das atividades propostas pelos professores 

 

Esse ponto foi crucial, uma criança autista em sua grande maioria não consegue

compreender que assistir “aulas” via internet é um procedimento educacional, para

muitos o celular ou computador é um meio de “brincar”, assistir seus vídeos de

desenho, música ou jogos e não para estudar. Outro aspecto é que pai e mãe para eles não

são o professor (a). Essa foi e ainda é uma barreira muito grande para a maioria.

Dica: Fracionar as atividades, pois a criança ou jovem autista não segue o mesmo currículo

dos demais alunos em sua maioria, devendo ser esse material adaptado. Uma opção seria

continuar com esse currículo em forma de atividades adaptadas e lúdicas, facilitando

assim a compreensão. Os pais poderiam assistir as aulas e depois repassar para seus

filhos o conteúdo de uma forma mais fracionada.

Não vieram os materiais adaptados do meu filho 

Essa foi outra questão que trouxe dificuldades. Se uma criança é autista e tem

comprometimento cognitivo, com certeza na escola ela terá todo o seu currículo

adaptado e nesse momento de atividades em condições de homeschooling* o mesmo

procedimento deveria ter sido seguido. Porém, essa foi uma das maiores reclamações dos

pais.

Dica: Os pais não são profissionais da educação acadêmica, existe a diferença

para o sistema educacional, então o brincar é uma solução para as atividades. Transformar a atividade proposta pelos professores em brincadeiras, mesmo porque

muitas crianças autistas aprendem de forma mais funcional quando executam atividades

práticas.

Não tenho como seguir todo o cronograma enviado pela escola 

Isso com certeza foi um aspecto preocupante, mesmo porque, como a criança obteria as

avaliações necessárias para comprovar que conseguiu aprender tal atividade? Ensino em

casa ainda não é uma realidade em nosso país, o máximo que os pais executam é

ensinar atividade diárias para seus filhos. E crianças com autismo, em sua

grande maioria, dentro da normalidade escolar não leva atividades de casa, todos os exercícios

são feitos em sala de aula ou em sala de recurso. Então não seria adequado nesse

momento exigir tal procedimentos dos pais, não é uma função deles já

que não optaram pelo sistema de homeschooling.

Dica: Siga o ritmo da criança, tente estabelecer o horário que ele (a) iria para a escola,

mantendo a rotina e inicie as atividades, dando tempo para execução. Sejamos honestos, mesmo na escola a criança não executa todas as atividades propostas

no mesmo dia, as vezes uma mesma atividade precisa ser reforçada várias vezes durantea semana.

Se a criança for agitada uma adequação de tempo é crucial, então dê espaço

de tempo.

Observe a criança, veja se está sendo funcional e prazeroso a execução da atividade,

faça uma de cada vez se for o caso e vá riscando as que ele (a) consegue executar de

forma funcional e com qualidade e só aí passe para a outra. A Avaliação de uma criança com autismo

vai depender do nível e dos comprometimentos que ele (a) possui. Sua avaliação se de forma

pontual e não por execução de avaliação por nota e isso também vale para o ensino

domiciliar.

Meu filho (a) estava em processo de alfabetização e agora tudo retrocedeu  

A alfabetização é um processo lento e focal, existe todo uma sequência de atividades

para tal e como dito antes não são todos os pais que terão essa habilidade, mesmo

porque a criança ou jovem autista necessita também de um processo agregado de

letramento para chegar à funcionalidade dessa etapa. A rotina e sequência desse

processo com a paralização ficou prejudicado, mas não perdido.

Dica: Com os materiais enviados pelos professores, os pais podem dar continuidade,

mas seguindo uma análise pontual da evolução da criança e não no seu ritmo. É difícil

para os pais pensarem como alfabetizadores porque nós já sabemos ler e a impaciência

pode prejudicar esse processo. Então vá com calma, não tenha pressa nessa etapa, veja a

evolução da criança ou jovem autista nas demais práticas em casa, veja se ele (a)

consegue generalizar o que foi ensinado, e aí sim passe para o próximo passo.

E não se esqueça, mais do que ensinar o seu filho (a) e seguir todas as atividades

enviadas pelas escolas o mais importante nesse momento é se incluir nas atividades,

sentir prazer na execução delas e também reconhecer quando não estiver preparada (o).

 

* Emanoele Freitas é fundadora e presidente da AAPA – Associação de Apoio à Pessoa Autista. Especializada em Autismo pela Universidade UC DAVIS e mãe de Eros Micael, motivador de toda pesquisa e desenvolvimento de trabalhos, palestras e cursos referente ao Autismo. Autora dos livros “Transtornos do Neurodesenvolvimento – Conhecimento, planejamento e inclusão real” e “Mediador escolar – Recriando a arte de ensinar”, publicados pela WAK Editora.

 

 

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