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Dia 24 de setembro de 2019 | Por Tacila Saldanha | Sobre Notícias
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Tiago Ribeiro: autor, com Aline Gomes da Silva, do livro “Leitura e Escrita na Educação de Surdos” (Wak Editora). Professor do Colégio de Aplicação do Instituto Nacional de Educação de Surdos.

Outro dia estava acompanhando uma amiga na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da Tijuca, no Rio de Janeiro. À medida que o letreiro avisava o número do próximo a ser atendido, acompanhado de um aviso sonoro, me dei conta de um burburinho que acontecia na recepção: chegara uma mulher surda procurando ajuda médica, mas ninguém ali sabia Libras, tampouco existia algum intérprete no local, apesar de a acessibilidade ser um direito da pessoa surda assegurada por Lei.

Para além do desfecho do episódio, pergunto-me sobre o quão corriqueiras são, em nosso país, cenas como essa. Recordo-me da indignação de uma amiga surda, professora pós-graduada, que foi a uma delegacia prestar queixa e leu, nos lábios de quem a atendeu, as seguintes palavras: “Libras? Que língua é essa? Ninguém conhece essa linguagem aqui não! Essa mulher não vai ser atendida aqui não. Isso que ela tá dizendo ninguém entende”.

E ninguém entende!… Porque faltam políticas públicas afirmativas da língua e da cultura surda. Porque na maioria das escolas inclusivas o surdo é obrigado a “aprender” a sua segunda língua (a Língua Portuguesa) como se fosse a primeira, às vezes inclusive uma língua estrangeira, porém, sua língua, a de sinais, é desconhecida de toda a escola, e o sentido de ser surdo é invisibilizado.

Ora, quando falamos de língua, não é (só) exatamente de língua que estamos falando. Trata-se de todo um oceano de sentidos que ela (a língua) carrega consigo: a possibilidade de conceituar e atribuir sentido ao mundo, de compartilhar experiências, de conhecer sobre o mundo, sobre o outro e sobre si mesmo… O que se nega quando se “nega” a língua?

A história dos surdos é também a história dessa negação. Em 1880, em Milão, reunidos em um Congresso, professores ouvintes decidiram, em votação da qual os professores surdos foram impedidos de participar, que o uso de sinais era prejudicial ao desenvolvimento dos alunos surdos, motivo pelo qual seria proibido. Muitos países, inclusive o Brasil, aderiram à ideia. No Instituto Nacional de Educação de Surdos, conforme lembra a historiadora e professora do próprio INES, Solange Rocha, os alunos foram proibidos de se comunicar em língua de sinais.

No entanto, se é verdade que a história dos surdos fala de negações, também é verdade que fala de lutas, conquistas e resistências! Não é à toa que neste Setembro Azul, assim chamado pela cor com que os nazistas alemães marcavam os surdos, celebramos não a dor, mas o orgulho surdo, a força, a resistência de um povo que mantém viva sua língua, cultura e arte!

No livro que organizo com a professora Aline Gomes da Silva, pela editora WAK: “Leitura e escrita na educação de surdos: das políticas às práticas pedagógicas”, chamamos um pouco a atenção para isto, para a necessidade de estarmos abertos a perceber e a aprender com a experiência do sujeito surdo, a assumir que estamos sempre em formação, que nossos saberes sobre nós e sobre o outro são insuficientes para compreender a “surdidade”, tão diferente que é da experiência do ser ouvinte neste mundo que nos toca viver.

E qual a aposta, portanto?

Por que não uma política linguística de legitimação e desinvisibilização do surdo e de seus artefatos culturais e linguísticos? Onde circula a Libras no nosso cotidiano? Nas escolas? E as histórias com protagonistas surdos? E a arte surda? Já ouvimos falar de Surdolimpíadas?

Por que não ensurdecer a escola e a sociedade, no sentido de abarcar a Língua de sinais como de e para todos? Representatividade importa, faz parte do movimento de retirar de nosso olhar a mancha com que enxergamos o outro de antemão. Questiono-me sobre aquela moça, naquela UPA na Tijuca que tentei ajudar, mas que, envergonhada, preferiu escrever, a seu modo, para a recepcionista… Lembro dos muitos surdos que não têm acesso a escolas e/ou classes… Que escrita têm produzido e aprendido a produzir em espaços onde sua língua é negada e sua cultura inexistente?

Sim, fico imaginando como será um atendimento médico de cuidado quando não se há uma língua comum… Também penso na minha amiga surda… Que ideia é possível de justiça quando essa nos é negada pelo fato de ser como somos? O que significa para a vida da criança surda quando um médico diz para a família para ela não ter contato com a língua de sinais?

Por isso, ensurdecer a escola. Para que talvez possamos                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          exercitar a escuta visual e aprender com os próprios surdos.

 

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