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Celiane_abreomo você avalia a importância de iniciativas como palestras e discussões abertas sobre temas como sexualidade e erotismo, por exemplo, para empoderar as mulheres com deficiência?

Todas as ações são importantes, principalmente se houver bom senso e qualidade na informação. O que tenho observado é que existe certa mistura dos assuntos. Um assunto é a sexualidade, que é inerente a todo ser humano, tenha uma deficiência ou não; outro é o erotismo. Vejo certa pressão para que as pessoas com deficiência falem sobre sua sexualidade e colocam a erotização como sendo o único caminho para vivê-la.

Temos acompanhado o aumento de imagens das mulheres com deficiência expondo seu corpo, que é natural e de direito, de forma erotizada. Esse é um grande avanço, mas é preciso estar segura dessa exposição.

São dois pontos importantes e que merecem atenção porque a erotização transforma a sexualidade em produto de consumo, o que já acontece com as mulheres sem deficiência. Fato que combatemos porque alimenta a ideação machista de que somos consumíveis e que fortalece a busca do corpo perfeito. Busca cansativa e desgastante!

Isso sem falar na erotização precoce das meninas porque não sabem ainda como lidar com a exposição da imagem erotizada da mulher. Elas simplesmente querem repetir um padrão que está disponível. A família e a escola são dois ambientes importantes para trabalharem esse assunto, mas ainda não se sentem preparadas para falar sobre sexo e sexualidade.

 Buscar e sentir prazer é algo inerente ao ser humano. Mas ainda é um tabu…

A sexualidade humana é a expressão do sentir e satisfazer desejos que o corpo solicita. Algo tão natural que ao sentir desejo sexual e sentir prazer ao responder a esse desejo, estamos vivenciando a sexualidade. Compõe nossa energia vital, seja para a procriação, seja para atender aos próprios desejos.

Falar sobre sexualidade desperta tabus, crenças, repressões, distorções e a reduz, muitas vezes, a sinônimos de genitais e reprodução humana, quando, na verdade, envolve também o desenvolvimento de relacionamentos. Em resumo, é a energia que dá vazão a sentimentos elevados como o amor, embora permita também que a agressividade e a violência manifestem-se por meio dela.

Viver a própria sexualidade implica descobrir seu próprio corpo, o que muitas vezes, dependendo das crenças familiares e culturais onde, por exemplo, a masturbação e/ou o sexo antes do casamento são situações tratadas como pecados, sujos, inapropriados, entre outros. Muitas mulheres sem deficiência jamais sentiram orgasmo, porque desconhecem o potencial do próprio corpo, afinal não se permitem explorá-lo.

São registros guardados na memória que as acompanha até a vida adulta, afinal, suas avós também desconheciam o próprio corpo, uma herança que pode ser dispensada porque não traz felicidade alguma. Muito pelo contrário, desperta sentimentos negativos sobre si mesmo.

 Este contexto complexo demanda, então, autoconhecimento, não é?

Sentir prazer num corpo que pode receber e dar prazer precisa ser um compromisso com sua própria identidade. Mas muitas nem sabem muito bem quem são. Crenças negativas limitam suas experiências, porque podem significar vulgaridade expor o corpo. Sentem-se alvo de olhares que a diminuem, afinal a sociedade patriarcal culpa a mulher por despertar o desejo sexual do homem ao mesmo tempo em que exige que ela satisfaça os desejos do parceiro antes dos seus. Isso é tão preocupante porque muitas são violentadas por seus parceiros e não sabem identificar essa violência. Muitas mulheres deixam de viver sua sexualidade por desconhecer sua identidade. O autoconhecimento é fundamental, é o primeiro passo.


Você acredita que a sociedade desencoraja as mulheres com eliane_frasedeficiência a engravidarem? Se sim: por que você acha que isso acontece?

A sociedade desencoraja e muito, principalmente se elas tiverem deficiência intelectual.

Vivemos o ranço social que herdamos de um passado onde as mulheres de família serviam apenas como procriadoras, e as mulheres de “vida fácil” serviam para dar prazer aos homens. Existe uma parcela da população que acredita nisso e exterioriza em suas piadas. Não é raro ouvir a frase “Precisa ser uma dama na sala e uma puta na cama”. Seja lá o que queiram dizer e/ou estabelecer na vida das pessoas, o mais correto é: seja quem você é em tempo integral.

O desconhecimento gera preconceito e o perpetua por séculos. Está registrado no imaginário coletivo que uma mulher com deficiência vai reproduzir uma criança com deficiência. Cada caso é um caso e precisa ser orientado devidamente por profissionais competentes.

De um lado, o tema recorrente é a esterilização de jovens com deficiência intelectual para que não engravidem. Do outro lado, pais que não autorizam que seus filhos com deficiência estabeleçam um relacionamento afetivo e sexual com outra pessoa, tenha ela ou não uma deficiência. E a desinformação corre solta o que  mantem acesa a preocupação e o medo. Sofrem todos! Ninguém fica imune a essa situação.

Como podemos desconstruir o mito de que pessoas com deficiência (em especial a mulher) é incapaz?

A começar pela própria mulher, porque muitas acreditam nisso. E não precisa ser uma mulher com deficiência para ter essa crença. O Brasil é um país grandioso, com uma diversidade incrível, e com muitos pontos semelhantes. Um deles é o olhar machista. Tenho convivido com frases agressivas de adolescentes que acreditam que ser homossexual é ser bandido, marginal, é não merecer respeito. Jovens que usam minissaia merecem serem estupradas, afinal elas pediram por isso; que os homens têm o direito de tocar no corpo de uma mulher sem ela autorizar. Meninas, jovens e mulheres com ou sem deficiência precisam viver sua sexualidade naturalmente.

Descobrir o próprio corpo como um corpo que pode dar e receber prazer. Talvez esse seja o primeiro passo para a concepção de que se tem o poder de decisão e, a partir disso, descobrir-se com potencial de decidir sobre tantas outras situações em seu dia a dia. Começar pela capacidade de tomar decisões é uma grandiosa conquista. Esse é o lembrete de que toda transformação tem início de dentro para fora.

O conceito de incapacidade é alimentado pelo preconceito, fortalecido pela desinformação que sufoca sua identidade e não permite que sua relação com o meio externo seja saudável.

A discriminação da mulher infelizmente ainda é uma realidade na nossa sociedade. Entre as mulheres com deficiência, ela é ainda maior? Como ela se apresenta e como podemos combatê-la?

Sim, é gritante essa discriminação. E não apenas em nossa sociedade, isso é uma situação que ocorre em todo o mundo. A criação da lei do Feminicídio mostra a dura realidade: mulheres são mortas pelo fato de serem mulheres. Qualquer nação onde haja o desequilíbrio entre os gêneros, será uma nação descompensada e adoecida. Homens tentam justificar atrocidades como mutilação genital, estupro corretivo, apedrejamentos, entre outros, a partir da crença de que as mulheres são seres inferiores e devem ser submissas.

Nesse contexto, as mulheres com deficiência tornam-se invisíveis, afinal, pensam eles, são improdutivas, incapazes até mesmo para procriar. O pensamento da sociedade precisa mudar e essa mudança é urgente, até porque não se trata apenas de ter ou não uma deficiência, mas da preservação da vida humana.

Novamente nos deparamos com um quesito importante nesse processo: informação! Disponibilizar informações, desenvolver projetos que envolvam crianças e adolescentes para que compreendam quem são e qual é o seu papel e sua responsabilidade na sociedade, desenvolvimento de tecnologias sociais e políticas públicas. Essa mudança acontecerá de fato quando todos os agentes da sociedade estiverem envolvidos e viverem a interdependência. Somos todos frutos de um útero!

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