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Quais os quadros psicológicos mais comuns apresentados por pessoas que adquirem deficiência?emilio-rafael_abre

Emílio: Tanto os acidentes automobilísticos ou em ambientes de trabalho, como também, e principalmente, as armas de fogo, têm sido as principais causas de aquisição de deficiência permanente no Brasil. Essas vítimas poderão passar por vários estágios iniciais assim estabelecidos:

CHOQUE: Quando ela realmente não capta o que está acontecendo, ou seja, que agora ela tem uma deficiência. Por causa disto, ainda não há sinais de ansiedade.

LUTO: Perda da motivação de conviver com essa realidade.

NEGAÇÃO: Fruto de uma carga de cobrança. É quando a pessoa que adquiriu uma deficiência sente o status de desvalorização da sociedade. Uma sensação de impotência pessoal e profissional que geram estados de autodesvalorização, sentimentos de segregação ou opressão. À medida que a pessoa se torna capaz de rompê-los, liberta-se da falsa “proteção” gerada pelo mecanismo de defesa da negação.

RAIVA: Um estado importante de ser manifestado durante a percepção da dimensão de sua perda, permitindo ao sujeito uma “válvula de escape”. Às vezes, essa raiva é projetada no médico, na equipe de enfermeiras e nos familiares, podendo comprometer ou não o processo de reabilitação.

DEPRESSÃO: Pode resultar na diminuição de motivação, refletindo nos tratamentos e nas atividades.

DEFESA: Gera hostilidade, sendo que algumas pessoas podem permanecer nesse estágio indefinidamente, enquanto outras, numa defesa considerada saudável, somam esforços para enfrentar e buscar sua “normalização” o quanto possível, reconhecendo as barreiras e buscando alternativas para contorná-las.

Qual o papel das relações humanas na readequação da pessoa com deficiência?

Rafael: As relações humanas são de fundamental importância para todos os indivíduos, somos seres gregários por natureza e nos construímos psicologicamente a partir dessa relação com o outro. A família, os amigos e namorados acabam por ser a rede de apoio para essa pessoa com deficiência, sendo que esses participarão diretamente do processo de readequação com a sociedade.

Cabe a essas pessoas oferecerem um suporte psicológico, no sentido de estarem abertos a ouvir as dificuldades, os desejos e anseios nesse processo de readequação. É importante que essas pessoas entendam que esse é um período onde pode haver um sofrimento significativo, sendo importante estarem informados sobre todos os aspectos desse processo, e que sejam capazes de oferecer conforto à pessoa com deficiência.

As relações humanas de qualidade contribuirão para que a readequação aconteça de maneira natural, afetando o mínimo possível a autoestima da pessoa com deficiência.  Essas relações podem também moldar o significado que a pessoa dará a essa condição, entendendo que se a família não se adaptar a essas novas características do indivíduo, isso poderá refletir nele, que pode vir a ter uma posição de não aceitação para consigo mesmo. Portanto, essa rede de apoio formada por familiares e pessoas próximas afetará diretamente na readequação da pessoa com deficiência ao contexto social.

Emílio: No processo de diagnóstico e plano de reabilitação precisamos considerar a família; ela será a unidade de cuidado da pessoa que adquiriu uma deficiência. E como a pessoa, sua família passará por estágios de choque, perda, integração, luto crônico. O ocorrido gerará uma revolução e mudanças específicas, considerando o lugar que a pessoa ocupa – namorada, esposa, mãe, companheira.

Entrará em cena o psicólogo, visando orientar essa família a lidar com o medo, o sofrimento e a incerteza. Podem ocorrer perturbações de ordens diversas, tais como a hospitalização e o afastamento do paciente de todas as atividades cotidianas. Uma nova organização varia entre desorganização e rompimento com algumas coisas ou a reorganização, reunião e fortalecimento.

emilio-rafael_frase1Como um trauma físico pode interferir na sexualidade das mulheres, em especial? Há um mecanismo psicológico que inibe a libido, afeta a autoestima especialmente nesses casos?

Emílio: Esse quadro pode levar a uma baixa autoestima, pelo menos temporária. E não conseguir superar seja qual for o obstáculo é muito mais difícil para quem tem uma baixa autoestima, uma característica das pessoas que se sentem inadequadas para enfrentar os desafios.

Essa mulher pode começar a acreditar não ter mais seus potenciais e capacidades sexuais, dando lugar temporariamente ao pessimismo e à negatividade. Sem senso básico de respeito por si mesma, desvaloriza-se e não se sente merecedora de amor e respeito por parte dos outros e principalmente do seu parceiro afetivo.

Quais são as principais preocupações da mulher com relação à sexualidade?

Emílio: Por causa da aquisição de alguma deficiência, elas podem se sentir temporariamente menos valorizadas que as demais mulheres, acreditando, por exemplo, que nunca mais serão mulheres plenas no ato sexual, capaz de ter e dar prazer aos parceiros. Mas isso são mitos que poderão cair com o tempo ou não. Se ela se retrair e se fechar para a vida e para o amor, certamente sua sexualidade será reprimida, anulada. Mas se a mulher, com o tempo, se reorganizar física e mentalmente, ela retomará seu dia a dia, suas atividades, seus sonhos e objetivos, tendo uma vida plena, inclusive no sexo. Dependerá de sua reabilitação e de suas próprias escolhas perante a vida.

Você atende a pacientes com e sem deficiência. As queixas quanto à sexualidade são muito diferentes?

Rafael: A vida sexual de pessoas com ou sem uma condição especial são similares, o que diferencia é que ambos podem apresentar limitações distintas. Apesar de às vezes gerar certo “estranhamento” por parte da sociedade, as pessoas com deficiência tem a questão da sexualidade como aspecto importante em suas vidas, e muitos as vivenciam mesmo apresentando certas limitações.

As queixas no que se refere à pessoa com deficiência se relaciona com algumas dificuldades de adaptação, baixa autoestima, dificuldade de expor seus desejos a um potencial parceiro e a questão da aceitação de seu corpo. Outra questão muito presente na clínica é o preconceito com que outras pessoas abordam essa temática, não respeitando e não dando valor às vivências sexuais dessa população.

Algumas pessoas relatam uma relativa melhora da vida sexual após se verem nessa nova condição. Isso tem relação com a redescoberta do próprio?

Emílio: Nós, seres humanos, temos uma tendência de repetir todas as nossas ações de maneira condicionada, quase mecanicamente. E na vida sexual não deixa de ser a mesma coisa, embora nem percebamos. A mulher, ao adquirir uma deficiência, terá que voltar a explorar o seu próprio corpo e suas novas possibilidades, adaptações e maneiras de dar e receber prazer, o que realmente melhora sua vida sexual.

É possível ter uma vida sexual plena após um trauma que culmine em uma deficiência? Como você trabalha isso com seus pacientes?

Rafael: Sim. É possível ter uma vida sexual após esse trauma. O psicólogo trabalhará, inicialmente, auxiliando nessa adaptação à nova condição, identificando limites e potencialidades. A relação do indivíduo com a sua família também merece atenção, como já foi dito, pois pode determinar como o mesmo se relacionara com o mundo.

É importante também mostrar ao paciente que a sexualidade é um conjunto de pensamentos, sentimentos e comportamentos relacionados ao sexo, e não somente o sexo propriamente dito. Com isso, o paciente passa a valorizar as relações que estabelecem com outras pessoas, os sentimentos, outras fases do relacionamento, como o flerte, e faz com que a sexualidade seja vivida de uma maneira plena e seja entendida como um fenômeno que abarca múltiplos aspectos.

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