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Como você descobriu a esclerose?

Entre os 18 e os 25 anos a perna formigava e eu tomava injeção de corticoide, daí melhorava. Falavam que era porque eu sentava em cima do joelho. Eu tinha dificuldade para escrever: minha mão ficava dormente, formigando e mais fraca, e achavam que era por causa do sutiã. Daí eu fiz uma redução de mama (que eu já queria mesmo fazer!), e os sintomas iam e voltavam. Mas como melhorava, ninguém dava muita bola.

Quando eu tinha de 24 para 25 anos, fui para Boston fazer um curso de inglês, em 1995. Eu já era formada em veterinária. Eu fui com uma das pernas totalmente dormente. Ela tinha acordado assim. Eu andava, mas não sentia a perna. A minha psicóloga dizia que era nervoso porque eu ia viajar, ia largar tudo aqui. Minha família ficou preocupada e eu dizia que não era nada. Eu me tratava com homeopatia e a médica também dizia que não era nada.frase

Meus pais, preocupados, me disseram para procurar um médico lá. E eu não queria. Quando eu estava indo embora de Boston para Nova York para  fazer um estágio e ficar com a minha tia que morava lá, estava muito quente e o calor piora os sintomas, e eu não sabia. Minha mão ficou muito ruim, eu não conseguia segurar um copo. Fui fazer exame em Nova York e o médico disse que eu tinha esclerose múltipla e recomendou que eu procurasse um médico em São Paulo.

Como foi essa transição?

Abri minha clínica em 1996, e de vez em
quando eu sentia alguns sintomas e ficava meio preocupada se o cliente ia perceber. Agora eu percebo que não me fez muito bem. Porque hoje, como todo mundo já sabe que eu tenho esclerose múltipla, eu fico muito mais em paz.

Eu adaptei meu apartamento por causa da cadeira, derrubei a parede, agora eu moro em um prédio em que não preciso mais segurar a porta do elevador para passar a cadeira.

_MG_5076Eu me lembro que uma vez fui andar de bicicleta na casa da minha fisioterapeuta, e eu andava com bastante dificuldade, por causa do problema de equilíbrio. Nessa época, eu andava com uma bengala, não conseguia andar sem ela. Lembro-me que, quando ela me disse, em 2006, que seria bom eu andar com duas muletas em vez de uma só, eu fiquei muito triste.

Mas fui aceitando, aos poucos, e peguei as duas muletas. No início, caía muito, machucava muito o joelho porque a muleta escorregava. Aí eu cansei de cair e fui para a cadeira e percebi que a vida era melhor sem cair tanto, sem sentir tanta dor no joelho. Além do que, eu ficava exausta. Lutei muito até o dia em que falei: “Desisto. Eu vou com a maré”, porque era como lutar contra ela. Essa doença dá uma fadiga física e mental que os médicos ainda não sabem explicar, é uma queixa muito recorrente nos pacientes.

Pretende reabrir o consultório? Como você se desloca até a casa dos clientes?

Não pretendo. Eu estou bem com os horários flexíveis. Atendo em consultório se for preciso, e tenho bem menos preocupação. E ainda estou brigando com o metrô [a desapropriação do consultório, que ficava na casa dela, foi por conta das obras de uma estação do metrô], então eu nem tenho cabeça para isso agora. Eu deixo o cliente bem à vontade para escolher como vai ser o atendimento. Às vezes eles deixam a garagem livre, aí eu sento no chão e atendo o animal lá.


Mora sozinha? Como é a sua rotina?
Moro sozinha há quatro meses.  Os meus pais não queriam que eu morasse sozinha, ficavam preocupados, achavam que eu não ia dar conta por causa da cadeira, disseram que é triste morar sozinha, que eu vou acabar morrendo sozinha. A minha família é superprotetora. Eu já plantei minha hortinha de temperos até!

 

_MG_5048Como é a sua relação com a cidade? Como dribla as dificuldades de acesso pelas ruas?

Aqui onde eu moro é mais plano, às vezes eu saio com a cadeira, mas é bem difícil. Eles fazem o rebaixado da calçada, mas quando você chega no asfalto, é mais alto, então eu preciso de ajuda para subir. E eu não gosto muito de pedir ajuda. Mas nesses casos, peço. Quem faz isso não é cadeirante, porque não sabe o que a gente passa.

O que você pensa sobre a inclusão das mulheres com deficiência na sociedade?

Eu acho que com o tempo as pessoas esquecem que você tem uma deficiência. A sua capacidade profissional e intelectual independem disso. As pessoas que te conhecem acabam apagando isso, porque não é importante. Eu não sou vítima. Todo mundo tem problemas.

A sociedade é reconhecidamente machista. Em sua opinião, as mulheres com deficiência sofrem ainda mais? O que você acha que precisa mudar?

Eu não sinto. No começo eu sinto que há medo por não saberem como lidar com a pessoa com deficiência, não sabem se ajudam ou não. Mas depois a pessoa vê além da deficiência e vira tudo a mesma coisa. O machismo é igual, a falta de tato é igual, sendo cadeirante ou não. Eu já passei por isso em relacionamentos. Eu até pensei que o fato de eu ser diferente fosse me poupar, mas não me poupou de nada.

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