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Psicólogo Bruno ministrando em  palestra. / Crédito: Arquivo Pessoal
Dia 19 de outubro de 2015 | Por Brenda Cruz | Sobre Comportamento e Notícias

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O psicólogo surdo Bruno Pierin mostra como superou o bullying na infância e conta como está se tornando especialista no assunto

Durante a palestra ministrada na Universidade Mackenzie, em São Paulo, o psicólogo Bruno Pierin Ernsen, falou sobre sua vida, carreira e “bullying”, tema de sua pesquisa de mestrado na Universidade Federal do Paraná.

Bruno sofreu complicações no parto, o que resultou no rompimento de ligações neuronais responsáveis pela audição. A surdez, porém, não o impediu de se formar em psicologia e de, hoje, ministrar aulas de artes em uma universidade de Curitiba, além de palestras como a que apresentou durante a conferência.

O psicólogo contou que decidiu pesquisar sobre o “bullying” a partir das experiências vividas na infância, em que, segundo ele, foi “perseguido” pelos próprios colegas surdos da escola inclusiva em que estudava.

A experiência no colégio de inclusão trouxe oportunidades de desenvolvimento na vida de Bruno, que logo aprendeu a língua de sinais e, posteriormente, pôde expandir seus horizontes ao ingressar na faculdade.

O estudo da psicologia permitiu que ele entendesse a realidade vivida por muitas crianças que sofrem desse mal.

Bruno:

Meu nome é Bruno Pierin Ersen, tenho 28 anos. Moro em Curitiba e me formei na área da psicologia e letras-libras em 2011. Agora faço mestrado com tema “bullyng dos surdos”.

Você é surdo congênito ou ficou surdo posteriormente?

Na barriga da minha mãe, eu era ouvinte, mas tive uma complicação médica no momento do parto. Fizeram uma cesariana, mas o cordão umbilical enrolou no meu pescoço fazendo com que faltasse o ar e causasse uma lesão na sinapse. Uma das ligações foi rompida, motivo pelo qual fiquei surdo.

Seus pais são surdos ou ouvintes? Qual a formação deles?

Meu pai era médico e ouvinte, ele faleceu por causa de um câncer. Minha mãe é professora de língua portuguesa e também ouvinte.

Em uma época tive vontade de fazer medicina assim como ele, mas para os surdos é difícil, não tem área de trabalho. Foi então que decidi fazer psicologia, que não me impediria de atuar.

Você tem algum irmão ou alguém da família que também seja surdo?

Eu tenho irmãos, porém, são todos ouvintes. Não temos problemas na genética.

Você atua em clínica?

Sim, eu comecei na área há pouco tempo, mas parei por causa dos estudos. Então não estou atuando no momento.

Você atende somente surdos ou ouvintes também?

Atendo apenas surdos, mas já atendi ouvintes com deficiência física. Eu expliquei que era surdo e tentei ajudar da melhor maneira.

Como era o seu atendimento no Setting terapêutico?

É importante ter o conhecimento da cultura surda. Então eu atendia e buscava entender o problema, os fatores familiares, escolares e sociais. Para que, depois, pudesse realizar a terapia.

Você ministra aula em faculdade?

Sim, atualmente sou professor de Artes em uma universidade onde ingressei através de concurso.

Você conhece quantos psicólogos surdos sinalizados?

Aqui em São Paulo conheço a psicóloga Celma e a Rita. E conheço dois que moram em Porto Alegre. Em Santa Catarina, conheço uma psicóloga chamada Fran.

Qual a importância da formação de sinais por psicólogos surdos?

É muito importante. O português tem suas próprias características e riqueza de vocabulário, e a língua de sinais não pode ser pobre, tem que se igualar e ter riqueza de sinais. Por exemplo, a palavra “prazer” precisa ser igual em todos os contextos? Não! Os surdos precisam entender as diferenças de situações. Os sinais específicos e a expressão corporal são muito importantes. Eu contribuí para elaboração desses novos sinais.

 “A língua de sinais não pode ser pobre, tem que se igualar e ter riqueza de sinais”

Em um momento da sua palestra, você disse que também era atleta. Fale um pouco sobre isso.

No passado eu jogava futebol. Minha mãe tinha me colocado em um clube, porém, não gostei muito. Tentei jogar vôlei, mas as pessoas eram muito altas e como sou baixo, não me adaptei. Foi então que comecei fazer o triatlo. Me identifiquei muito com esse esporte, além do que, é uma ótima forma de cuidar da saúde, da beleza e da estética.

Qual a sua opinião sobre as paraolimpíadas no Brasil e a participação dos surdos?

Sim, eu acho importante estar dentro dessas competições, mas acredito que o foco principal deve ser o prazer que o esporte proporciona e não apenas a competitividade.

Teve um surdo que foi para a Austrália nas paraolimpíadas no ano de 2000 ou 2004 se não me engano, e fiquei impressionado. Conheci um surdo oralizado que participou da olimpíada de natação e ganhou em terceiro lugar.

Existem as olímpiadas, as paraolimpíadas e as olimpíadas só para surdos. E pelo que tenho conhecimento, o governo não dá tanto incentivo para as olimpíadas de surdos. Diferentemente das paraolimpíadas. Por que existe essa separação? Por que não recebemos incentivo? Por que a mídia não divulga tanto? Eu sinto essa carência nas olimpíadas para surdos, pois elas precisam ser valorizadas, receber investimento e ser demonstrada também.

Em outubro de 2014, participei de uma competição de surdos realizada apenas na América Latina. Fui somente para a corrida porque não tinha triatlo. O primeiro e segundo lugar ficou com o Chile, e eu recebi o terceiro lugar representando o Brasil.

A primeira vez que participei de uma competição, disputei com ouvintes no triatlo. Pensei que fosse ficar entre os últimos, mas fiquei na metade.

Momento Palestra – BULLYNG

Bruno:

Às vezes, a pessoa pratica o bullying porque, na família, ela já sofre com isso. E com o surdo tende a ser pior. Ele pode ter, por exemplo, uma babá que o maltrata, e se ele não tiver uma comunicação efetiva com os pais, não vai conseguir relatar o problema.

“se ele não tiver uma comunicação efetiva com os pais, não vai conseguir relatar o problema”

Quando eu era pequeno, tive muitas dificuldades. As pessoas começaram a perceber que havia algo diferente comigo. Na época, era uma negação ter uma criança surda. Porém, veio a confirmação do médico “Sim, ele é surdo”.

Quando cheguei à idade escolar, fui oralizado, e no contra turno, estudava em uma escola inclusiva, onde só havia surdos. Porém, não me adaptei. Comecei a sofrer bullying pelos próprios alunos surdos. Eles zombavam de mim por eu ter olhos azuis, cabelos e pele clara, diziam: “Você parece uma bonequinha. Um anjinho”, isso me deixava muito mal.

“Você parece uma bonequinha. Um anjinho”- isso me deixava muito mal

Minha mãe, ao saber do problema, me transferiu para uma escola de inclusão, onde havia apenas alunos ouvintes. Logo percebi que teria muitas dificuldades, pois não sabia me comunicar em libras. Desconhecia o significado das palavras, não sabia o nome das cores e nem o meu próprio nome. Os professores achavam que eu tivesse uma limitação cognitiva.

Um dia, me levaram no Estádio do Atlético Esporte Clube em Curitiba e começaram a me mostrar as cores que tinham lá, fui associando-as aos objetos, e assim pude assimilar e entender o significado de “cor”. Aos poucos fui compreendendo o significado de tudo que, antes, parecia não fazer sentido. Até hoje sou atleticano (risos).

Bullying e assédio sexual

Certa vez, fui ao banheiro da escola e três meninos começaram a zombar de mim. Mostravam suas genitais e faziam gestos obscenos. Eles queriam que eu fizesse o mesmo. Mas eu não obedecia, então, eu apanhava e também batia neles.

No time da escola, eu sempre era o goleiro, não porque era bom naquela posição, mas porque eles gostavam de chutar a bola bem forte para me machucar. Os meninos sempre me batiam. E novamente, me sentia prejudicado.

De tanto sofrer aquelas situações, mudei, novamente, de colégio. Porém, dessa vez, eu virei o “agressor” e comecei a praticar o bullying com outras pessoas. O assédio que senti na infância trouxe influências para que, depois, eu também o praticasse.

 “O assédio que senti na infância trouxe influências para que, depois, eu também o praticasse”

A Psicologia

O bullyng ou vitimização caracteriza-se por ser agressivo, negativo e por acontecer repetidas vezes. Quando entrei na faculdade comecei a aprender os conceitos da psicologia. Foi a partir das minhas experiências que senti a necessidade de fazer meu mestrado sobre o tema. No Brasil, existem várias pesquisas sobre bullying com ouvintes, porém, com os surdos, é a primeira com profundidade.

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