Referência em inclusão e acessibilidade!
ACESSO GRÁTIS| Leitor de Tela
Psicóloga Rita de Cássia ministrando a palestra. Crédito: Nathan Ezahya
Dia 9 de outubro de 2015 | Por Brenda Cruz | Sobre Revista

Conteúdo em Libras

Texto em Português

Através de palestras, a psicóloga Rita de Cássia Maestri instrui professores a lidarem com as especificidades dos alunos surdos

A psicóloga e professora Rita de Cássia Maestri, surda desde os dois anos de idade por causa de uma meningite, relata que enfrentou muitas dificuldades no ensino regular por conta do despreparo dos professores em lidar com alunos surdos, dentre uma série de outros problemas.

Formou-se em uma época que quase não existiam psicólogos surdos no Brasil. Sua carreira iniciou em 1984 na cidade de Curitiba, com atuação inicial no ambiente escolar. Apesar de também exercer por muito tempo o trabalho em clínica, decidiu empenhar-se como professora quando, em 2014, foi aprovada em um concurso passando a trabalhar diretamente na área educacional. Em entrevista à Revista D+, Rita contou um pouco da produção do livro “Ciranda das Letras e a Poética do Alfabeto” de Noemi Ansay, do qual foi convidada para fazer a tradução em libras.

Meu nome é Rita de Cássia Maestri, tenho 57 anos. Sou surda profunda e moro em Curitiba. Sou professora de letras-libras e língua de sinais e me formei, no passado, em psicologia. Concluí meu mestrado em 2014. Agora trabalho na Universidade UFPR (Universidade Federal do Paraná).

 

Você é surda congênita, ou ficou surda posteriormente?

Eu nasci ouvinte, porém, aos dois anos de idade perdi a audição por causa de uma doença: a meningite. Então, até hoje sou surda profunda.

Seus pais são surdos ou ouvintes?

Toda a minha família é ouvinte, apenas eu sou surda.

Quando você se formou em psicologia?

Eu me formei em 1984, em Curitiba mesmo.

Você também é psicóloga clínica?

Sim, no passado eu trabalhava. Na época em que me formei, atuava dentro do ambiente educacional como psicóloga escolar. Fiquei 25 anos nesse campo. Porém, dez anos após minha formação, comecei atuar também na área clínica, exercendo essa função por muitos anos.

Em 2014, quando passei em um concurso, escolhi, de fato, trabalhar como professora e comecei a atuar diretamente na área educacional. Mas respondendo à pergunta, tenho sim, experiência na área clínica.

Como era feito o seu atendimento no Setting terapêutico de consultas?

No começo, chegam alguns surdos oralizados. Porque em Curitiba é muito forte a cultura de oralização. Então, nós começamos com a oralização, porém, depois de algumas sessões eu prefiro usar a língua de sinais. Se a pessoa não souber usá-la, continuo com a oralização, utilizando vários métodos de acordo com as especificidades de cada paciente.

Você conhece quantos psicólogos sinalizados?

Na época em que me formei não existia nenhum psicólogo surdo. Porém, de uns 15 anos para cá, surgiram muitos, como o psicólogo Bruno, por exemplo, e muitos outros. Há um grupo de, em média, 30 formados e outros que estão estudando. Não consigo quantificar exatamente, mas sei que o número de psicólogos surdos vem crescendo muito.

Você tem um grupo de psicólogos surdos?

Presencial não, mas conheço um grupo de pesquisa que compartilha metodologias e cria sinais específicos da área. Porém, minha perspectiva para o futuro é criar um grupo para que tenhamos mais contato; fazer uma sala, um seminário e um congresso de psicologia de surdos. Tenho essa vontade. Mas isso [o projeto] ainda está no início.  Começamos, este ano, a nos comunicar com os psicólogos surdos e também com ouvintes que sabem a língua de sinais. É importante que ele seja sinalizado para que haja interação.

O grupo é particular e independente. No passado eu trabalhei e criei meus próprios sinais para a psicologia. Outros surdos psicólogos criaram seus próprios sinais. Então, nós fomos unindo nossos conhecimentos e vendo quais eram os melhores sinais para cada contexto. Estamos nos organizando para fazer um glossário para mandar para UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

Para entrar no grupo, um psicólogo surdo faz uma avaliação com alguns critérios, como a fluência na língua de sinais, por exemplo, e a formação em psicologia. Pode ser ouvinte, desde que tenha a mesma comunicação que todos.

Rita, você falou sobre fragmentos culturais próprios dos surdos, e também da necessidade de comunicar e conhecer as especificidades deles. Você trabalha com formação de professores?

Sim, muitas vezes já participei da formação de professores ouvintes e surdos, além de diversas palestras.

Os professores ouvintes sempre reclamam porque aprendem a língua de sinais, mas na hora de ensinar os surdos é completamente diferente. Às vezes o surdo não sabe a língua de sinais ou não tem o estímulo por parte da família. Outros sinalizam bem, mas não sabem o português. Precisamos mostrar essas especificidades, essa diversidade, porque não existe surdo igual, cada um tem a sua peculiaridade, a sua influência, a sua história, e isso precisa ser demonstrado pelos professores. Também explico sobre as melhores práticas de ensino.

 “Precisamos mostrar essas especificidades, essa diversidade, porque não existe surdo igual, cada um tem a sua peculiaridade, a sua influência, a sua história, e isso precisa ser demonstrado pelos professores”

Conversamos sobre como eles são vistos pela sociedade, e sobre como as pessoas, muitas vezes, os vêm com sentimento de pena. Mas mostramos que o surdo deve ser visto como autônomo e ele mesmo deve se sentir assim. Deve sim, ter o apoio da família, porém, não com sentimento de piedade. Devemos trocar esse pensamento do professor e lutar contra essas dificuldades.

Paulo Freire demonstra como é esse desenvolvimento da educação e da autonomia. É necessário mudar a forma de percepção de si mesmo por meio dos professores. Eu tento mostrar como é esse desenvolvimento na área da surdez, além de ensinar como incentivá-los dentro da sociedade para que haja igualdade. Não que o surdo seja um “coitado”, mas as pessoas que têm a profissão de professor têm essa responsabilidade de ver o surdo como diversidade e valorizá-lo com equidade.

Você é ou já foi professora do ensino básico ou universitário?

Na área da surdez não, apenas palestras. Atualmente dou aula para alunos ouvintes como professora de libras por causa da Lei da disciplina dentro das faculdades e das Universidades Federais. Cada uma precisa ter, dentro da licenciatura, a disciplina de libras, assim como física, química, português(etc), todos os alunos têm que ter a aula de libras.

Antigamente eu dava palestras e orientação sobre psicologia e sobre o autoconhecimento do surdo.

Como foi a trajetória de produção do livro “Ciranda das Letras- A Poética do Alfabeto”?

Nesse livro, fiz apenas a tradução. A obra, na verdade, é da Noemi Ansay, que me convidou para traduzir alguns poemas para libras. Não tenho obras de minha autoria. Nós líamos juntas, e as palavras e conceitos que desconhecia, a Noemi me auxiliava. E depois passei para a gramática dentro da língua de sinais, resinificando e contextualizando. Então, fizemos os vídeos organizando pela ordem do alfabeto.

A maioria dos surdos não tem a influência do português, mas eles têm a língua de sinais. Então, o nosso objetivo, é aumentar o nível de informação.

Qual a sua opinião sobre os psicólogos que atendem surdos junto do intérprete de libras no Setting terapêutico?

Eu acho que há uma interferência negativa. Os psicólogos precisam usar a língua de sinais diretamente, porque o intérprete pode influenciar, ou talvez retirar algumas informações importantes. É necessário que o psicólogo use a língua de sinais, pois a maioria dos surdos não aceita que o psicólogo não se comunique de modo direto com eles. O intérprete pode inibir os sentimentos dos surdos, impedindo que eles se expressem plenamente, causando desconforto.

Se o psicólogo não conhece a língua de sinais, significa que ele não conhece a cultura dos surdos, logo, não vai entender. Então, como ele vai orientar?

É importante que ele faça um curso de língua de sinais e conheça a identidade e especificidades dos surdos para poder orientar de forma coerente e, consequentemente, haja o desenvolvimento do paciente.

Há alguma questão que queira acrescentar nessa entrevista?

A sociedade precisa ter uma nova visão a respeito do surdo. Porque, muitas vezes, eles são vistos através de estigmas. Mas os surdos lutam para demonstrar suas potencialidades.

Nós, grupo de psicólogos, precisamos apoiar os surdos para transformar essa perspectiva, para que eles, realmente, tenham autonomia e autoestima, e assim, possam, de fato, se desenvolver.

 “Nós, grupo de psicólogos, precisamos apoiar os surdos para transformar essa perspectiva, para que eles, realmente, tenham autonomia e autoestima, e assim, possam, de fato, se desenvolver”

A família também precisa compreender que o surdo é capaz, mas que precisa do incentivo e do apoio correto. Ele não pode ser desprezado ou tachado de preguiçoso. É necessária a aceitação da condição de surdo primeiramente, e assim, pode-se orientá-lo.

Existem pessoas com deficiência visual, físicas, intelectuais, porém, em todas essas, o indivíduo pode ouvir e se desenvolver sozinho. O surdo pode ter um problema cognitivo por causa da comunicação. Ele é visual. A sociedade não dá acesso a legendas e a janelas com intérpretes de libras. Portanto, ele não tem acesso à informação por causa da limitação linguística. Então, como o surdo vai aprender sozinho? O apoio torna-se fundamental para que se desenvolva cognitivamente.

Posts Relacionados

Acesse a Revista D+