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Dia 12 de abril de 2016 | Por Revista D+ | Sobre Revista

A acessibilidade mostrou-se evidente na comemoração mais acolhedora do país

 

Texto Brenda Cruz, Cintia Alves e Renata Lins

Fotos Jéssica Aline Carecho, Natalia Henrique e Divulgação

 

Na esteira rápida e incansável do tempo, o Carnaval parece ter acontecido há meses. Mas não poderíamos deixar de abordar essa festa – inclusiva, sim! – que na verdade rolou ali, no mês passado.

Com a riqueza e a diversidade já tão conhecidas, o Brasil exibe formas peculiares de celebrar o carnaval em cada um dos estados. Para saber em que parte dessa festa as pessoas com deficiência entrariam, a Revista D+ acompanhou alguns ensaios em São Paulo, entrevistou dirigentes de escolas no Rio de Janeiro e contou com um repórter especial na Bahia, que traz a história do maior bloco contendo pessoas com deficiência do mundo.

A festa já passou, mas os benefícios da inclusão se perpetuam por muito mais tempo. Confira.

São Paulo

Paixão em cada passo

O esforço e a dedicação das escolas paulistas para encontrarem um caminho para a acessibilidade nas alas inclusivas nasceu nos anos 1990; em que a palavra inclusão não era tão destacada como hoje.

A escola de samba Rosas de Ouro investe na Ala Social desde 1995, um projeto social que envolve a comunidade e pessoas com deficiência. Apesar da iniciativa – que surgiu após a participação da integrante Natália Castro, com malformação congênita – a coordenadora da ala, Vanessa Dias, afirma que houve muita apreensão para inserir outros integrantes na época. Afinal, ter pessoas com deficiência não era comum em alas carnavalescas.

Hoje, todos os integrantes com deficiência da ala são cobrados como qualquer outro componente. “É o que eles pedem para mim”, conta Vanessa. E completa, animada: “Você não percebe, no desfile, quem é cego, por exemplo. Ninguém entra com bengala: eles ensaiam e aprendem a coreografia. Eles sabem que são muito importantes para a escola”.

Para Caio Medeiros de Carvalho, 34 anos, cego, que desfila na Unidos de Vila Maria, é fundamental sentir-se à vontade com a escola. “Quando começamos a frequentar uma escola de samba, percebemos uma série de valores que, às vezes, só encontramos dentro da família. A riqueza que a diversidade traz é um grande aprendizado”.

A Unidos de Vila Maria destaca-se, desde 2008, com a ala Amigos da Ana Paula, que traz como estandarte Ana Paula Prado, 23 anos, com deficiência rara de ataxia cerebelar. A moça tornou-se símbolo de garra e determinação que sensibiliza a escola a novos projetos sociais para pessoas com e sem deficiência, aproximando-as.

“Acho que a deficiência não está nas pernas: está na cabeça das pessoas. Nós queremos incentivar e dar oportunidade para que todos tenham a experiência de estar no carnaval”, diz Ana Paula, que desfilou este ano no carro Ilhabela.

Anhembi

 

Rosas de Ouro

 

anhembi

 

Rio de Janeiro

Avenida sem fronteiras

“O maior espetáculo da Terra levou a questão da pessoa com deficiência para o Brasil e para o mundo”. Foi dessa maneira que Georgette Vidor, secretária da Pessoa com Deficiência da Prefeitura do Rio de Janeiro e coordenadora da Seleção Brasileira de Ginástica Artística feminina, descreveu a participação de pessoas com deficiência nos desfiles da Sapucaí.

A escola de samba carioca União da Ilha do Governador trouxe oito atletas paralímpicos em cadeiras de rodas fazendo acrobacias junto com artistas circenses no solo e em cima de um tripé. No enredo da escola, eles ajudaram a contar a história dos deuses do Olimpo que vieram conhecer o Rio.

Para Georgette, a festa está se tornando cada vez mais inclusiva: “Chamamos atenção para os desafios que o segmento ainda precisa enfrentar. Isso já é um legado que os Jogos Olímpicos e Paralímpicos estão deixando”, acredita ela, que desfilou na escola junto da delegação de atletas.

Na Marquês de Sapucaí, as pessoas com deficiência visual puderam utilizar o recurso de audiodescrição. Foram doados 1.500 ingressos para pessoas com todos os tipos de deficiência participarem dos desfiles, tanto no grupo Especial quanto no grupo A.

Outro exemplo é a escola de samba mirim Mangueira do Amanhã, que é um dos projetos que compõem o Programa Social da Mangueira. Fundada pela cantora Alcione, reúne crianças e adolescentes entre cinco e 17 anos, com o objetivo de incluí-los por meio do samba. Esse ano, a escola abriu as portas para que crianças com Síndrome de Down participassem da folia, juntamente com a ONG I Know My Rights – IKMR (Eu Conheço Meus Direitos), de São Paulo, que levou crianças refugiadas de diversos países.

Soca Silva, presidente da Mangueira do Amanhã, contou que a meninada interagiu muito bem com a escola. “Com esta ala, trouxemos as crianças para vivenciar um carnaval sem preconceitos, trabalhando a inclusão e a integração de todas por meio do respeito e da amizade”, disse o presidente.

Esse ano foi o primeiro da ala, e a escola já deixa o convite para os próximos desfiles. “A Mangueira do Amanhã está de portas abertas para que todas as crianças que vieram pela primeira vez retornem, e que venham cada vez mais crianças viver essa experiência.” Campeã do carnaval mirim, o projeto distribuiu gratuitamente as fantasias usadas.

Mangueira

 

União da Ilha

 

Salvador

Me deixe à vontade para festejar

Por Alexandre Santos

 

Uma doença progressiva, em meados de 1970, obrigou Luiza Câmera a trocar a cidade natal, Salvador, por Brasília – capital que, uma década antes, fundava a primeira unidade da Rede Sarah, o maior centro de reabilitação físico-motora do país.

Sob assistência de profissionais renomados na capital federal, ela tratou de problemas nos joelhos, decorrentes de medicamentos à base de cortisona, substância de efeitos colaterais severos.

No total, foram cinco anos de tratamento no Sarah. Tempo suficiente para a soteropolitana aprender a lidar com a condição a ela imposta a partir dali. A troca de experiências com outros pacientes, aliás, descortinou para ela o que viria a ser o seu novo desafio: militar na causa a favor das pessoas com deficiência.

Em 1993, de volta à capital baiana, pôs o plano em prática. Fundou o primeiro bloco carnavalesco destinado a pessoas com deficiência física: o Me Deixe à Vontade, um dos principais projetos de inclusão social da capital baiana.

Apesar de ser voltado para um público específico, o bloco nasceu aberto a todos. Ou seja, não há espaço para rótulos, como define a própria fundadora-presidente. “Nosso trabalho é considerado o mais abrangente nessa área. Nele, acolhemos homens e mulheres com os mais diversos tipos de deficiência. Aqui, recebemos familiares dos associados, amigos da causa e profissionais da área”, explica Luiza, hoje aos 70 anos.

Entre os foliões ilustres que já desfilaram no Me Deixe à Vontade, ela lembra da atriz baiana Regina Dourado, ex-madrinha da agremiação. “Regina deu uma grande visibilidade para nós. Levou outros artistas e tornou nossa proposta ainda mais conhecida. Por isso, passamos a receber gente até de outros estados”, conta a dirigente, que ainda ressalta: “Quando escolhi fazer isso, eu disse: é por essa causa que vou lutar e é com esse povo que eu vou viver”.

Tanta dedicação à empreitada pode ser vista em cada carnaval. Na festa deste ano, por exemplo, o Me Deixe à Vontade reuniu um dos públicos mais expressivos de sua trajetória: cerca de duas mil pessoas foram às ruas do centro soteropolitano empunhando a bandeira da igualdade e da inclusão social. O desfile homenageou o cinquentenário do Trio Tapajós, o primeiro a desfilar na folia momesca, em 1956.

Em 2017, um dos planos do Me Deixe à Vontade, além de atrair mais foliões, dentre outras novidades, é convidar um cadeirante ilustre, cuja história serve de exemplo. “Vamos chamar o Herbert Vianna [cantor e guitarrista dos Paralamas do Sucesso, um cara que venceu as intempéries da vida e continua a seguir o seu caminho”, conclui Luiza.

Batuqueiros do Silêncio

Bloco Me Deixe à Vontade

  pernambuco

(Fotos: Divulgação / Mangueira: Pedro Andrade / União da Ilha: Alexandre Farah)

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