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Depois de perder o braço e deixar de clinicar como dentista, com o que você trabalha?

Hoje eu trabalho na área de informações médicas na indústria farmacêutica. Nós damos respaldo para questionamentos que vêm da força de vendas: os profissionais visitam os médicos e, se eles têm dúvidas, nós captamos essa dúvida, preparamos uma resposta e enviamos. Também damos suporte para o SAC. Se alguém liga para o 0800 e faz uma pergunta que não tem resposta em bula, por exemplo, o questionamento vai para o nosso departamento e nós vamos atrás de pesquisas científicas para responder ao consumidor. Também fazemos pesquisas para médicos que trabalham na nossa área, participamos de congressos etc.

Como você recebeu a notícia de que teria que amputar o braço?

Quando eu fui para a cirurgia em 2006, meu médico não planejava tirar o braço. Ele disse que daria para mantê-lo e que eu levaria uma vida normal, daria até para clinicar. Só que a cirurgia foi bem mais complicada, durou 12 horas. Fiz todo o tratamento e quando chegou a hora de reabilitar o médico sugeriu fazer enxerto, tirando pele da perna, só para eu ficar com um braço estético. Minha irmã conversou comigo, ela disse: “Acho que não vai ficar bom. Vai ser outra cirurgia grande e acho que não vai valer a pena”. Para você ter uma ideia, eu carregava o braço numa tipoia o tempo inteiro, era um braço sem movimento. Então foi um processo para eu entender e ver o que era melhor. E a amputação, em 2007, foi a melhor decisão que eu tomei. Foi um alívio, eu carregava muito peso. Como a cirurgia foi grande, no úmero, bem perto do ombro, tirou aquele osso maior e ficou uma prótese lá dentro; infectava, era muito ruim. Era aberto, um buraco, e para tomar banho tinha que cobrir. Era muito feio. Hoje até o meu médico reconhece que foi a melhor decisão que nós tomamos. Para ele também é difícil tomar uma decisão como essa.

 Como você começou a nadar?frase

Uma voluntária da AACD, chamada Meiko Fujita, é uma super profissional de nado sincronizado e já treinou muitas atletas que hoje são olímpicas de nado sincronizado convencional. Ela propôs desenvolver o nado sincronizado inclusivo. Apareceu na AACD no final de 2014 e foi muito legal! Nós começamos a treinar e, em junho passado, surgiu um simpósio em Taiwan, o I Simpósio das Atletas com Deficiência do Nado Sincronizado: eles precisavam de uma pessoa para ir que tivesse passaporte e precisava ser logo. Eu me encaixava no perfil e ainda recebi patrocínio da empresa em que eu trabalho para representar o Brasil. Foi o primeiro passo para o nado sincronizado na AACD. O nado no estilo sincronização não tem status de competição paraolímpica. Para que um esporte seja considerado paraolímpico é preciso que um número mínimo de países pratiquem esse esporte, são necessários dez, mas somamos oito. Hoje nós temos dez atletas treinando e isso é muito bom!

_MG_4457Como foi a readaptação a sua casa?

Na minha casa, em relação à parte funcional, continuou tudo igual. Mas algumas coisas pequenas da vida diária, como cortar alimentos com faca, por exemplo, eu não consigo mais. Então eu corto muita coisa com tesoura. Mas o restante eu faço tudo. A Stella, minha filha, me ajuda muito, e o que aconteceu comigo foi uma experiência de vida para ela também. Ela não me conhece com braço. Ela me ajuda a entender a vida, a fazer supermercado, tudo. Na vida pessoal, com meu marido, acredito que o que nós temos de problemas, discussões não está relacionado à minha deficiência, mas ao que eu seria de qualquer jeito. Dificuldades que todo casal vive. Esse ano eu faço 18 anos de casamento. Com relação ao sexo, também continua tudo igual. O Luís é uma pessoa que me apoiou muito no período que eu fiquei doente. Eu tenho três irmãos que me ajudaram muito também, me acompanhavam em quimioterapia, por exemplo. Meu pai era vivo e me deu muito apoio para cuidar da Stella.

Qual a sua opinião sobre a inclusão de mulheres com deficiência na sociedade?

Eu trabalho com muitas pessoas jovens, e acho que as mulheres vivem um momento de empoderamento, de decisões e tudo mais. O que a mulher conquistou até hoje é uma caminhada que não tem mais volta. As pessoas que têm uma deficiência congênita não são tão estimuladas a estudar e ter uma oportunidade melhor de trabalho. E isso dificulta a sua inclusão.

Sobre as mulheres com deficiência, existem vários movimentos e eu acho muito legal nos unirmos e nos identificarmos,  mas eu também não gosto muito desse separatismo. Nós somos mulheres, no geral, estamos excluídas da sociedade e temos que brigar por esse lugar, sermos cidadãs como outros, com deficiência ou não. Todos têm deficiências. O empoderamento deve ser da mulher, de maneira geral. É claro que, para nós, que temos deficiência, às vezes se torna mais difícil, mas a gente tem que lutar, não só por questões individuais relacionadas a uma deficiência, a uma condição social. Por exemplo, se você tem direito a um desconto para uma medicação de alto custo para o seu filho, você tem de ir atrás e batalhar por ele._MG_4484

Mas a nossa sociedade ainda é muito machista. Você acha que em relação à mulher com deficiência isso é ainda pior?

Acho que sim. Eu já era casada quando me tornei pessoa com deficiência e em nenhum momento meu marido foi desrespeitoso com isso, muito pelo contrário, ele sempre me valorizou. E hoje ele até esquece. Teve um dia que eu acordei à noite e bati alguma parte do corpo e machuquei. Foi coisa pouca. E aí o meu marido disse: “Eu não sei porque você não coloca a mão na frente…”. Eu respondi: “Pois é. Uma mão estava segurando o travesseiro e a outra eu não tenho…”. Para você ver como é uma coisa super natural para nós! Algumas meninas que eu conheço e que são amputadas de membros, por exemplo, comentam sobre a dificuldade que elas sentem em conseguir namorado. Mas para mim a pior deficiência é ser uma pessoa vazia, insensível e pobre de espírito.

 

 

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