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O público superou as expectativas dos organizadores: o tema é emergente/ Crédito: Cintia Alves
Dia 13 de outubro de 2015 | Por Brenda Cruz | Sobre Comportamento e Notícias

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Evento celebra o dia Nacional do Surdo

Por Renata Lins e Cintia Alves

Setembro é um mês repleto de comemorações, sobretudo para as comunidades surdas brasileiras. São celebradas as conquistas de seus direitos de integração na sociedade, e fomentados com mais veemência debates sobre a inclusão e políticas públicas que permeiam a temática.

Em contribuição com o movimento, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), no dia 18, abriu as portas para receber o 4º “Setembro Azul”, evento que reúne educadores, estudantes, e militantes da causa da pessoa surda, com intuito de desenvolver um espaço para aproximação às lutas pelos direitos culturais e linguísticos. A mobilização surgiu em 2011, pela iniciativa do aluno surdo Guilherme Oliveira, com intenção de mostrar aos surdos que eles não estão sozinhos.

A fita azul turquesa, introduzida como símbolo da organização, foi escolhida pelo Dr. Paddy Ladd (surdo) no XIII Congresso Mundial de Surdos na Austrália, 1999, em memória às vítimas surdas da opressão e audismo (discriminação da pessoa surda pelos ouvintes) no período da Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Desde 29 de outubro de 2008, o Brasil instituiu o dia 26 de setembro como “Dia Nacional do Surdo” (Lei nº 11.796/2008) e esta se tornou uma data relevante no contexto das reivindicações e/ou comemorações das pessoas surdas brasileiras. A data é significativa, por remeter à inauguração da primeira escola especial para alunos surdos, em 26 de setembro de 1857, instituição com sede no Rio de Janeiro, atualmente denominado Instituto Nacional de Educação de Surdos. Hoje, autarquia do MEC, oferece tanto ensino básico como curso de graduação para formar professores bilíngues de surdos (leia mais sobre isso na matéria de capa desta edição)

Para a pedagoga Patrícia Rezende (surda), presente no evento, a importância de encontros como este está no desafio de romper as barreiras atitudinais que insistem em permanecer na sociedade, “O Setembro Azul tem grande significado para a comunidade surda, pois representa nossa luta. O surdo quer que várias coisas sejam garantidas: a educação bilíngue, a libras e a acessibilidade. Esse momento é realmente importante, pois mostra nossa firmeza e nosso valor diante do governo e da sociedade”, afirma Patrícia.

Desde que a universidade cedeu o espaço para abrigar a comemoração, também houve uma preocupação em fazer com que as crianças surdas se apropriassem de sua cultura. Educadores dizem que o envolvimento das crianças no evento, faz com que elas sintam-se representadas ao verem adultos surdos em posição de destaque, palestrando em língua de sinais. Pensando nisso, a organização separou um espaço para atividades lúdicas. Durante o evento, foram oferecidas atividades de recreação para que as crianças surdas filhas dos participantes pudessem interagir em oficinas de pintura, desenhos, jogos e brincadeiras.

Atividades culturais com crianças surdas – Coordenadora Maria Carolina Bonfim / Crédito: Rafaela Sessenta

Atividades culturais com crianças surdas – Coordenadora Maria Carolina Bonfim / Crédito: Rafaela Sessenta

O processo de conscientização das crianças surdas no Setembro Azul precisa ser estimulado, principalmente, para que se desenvolva o conhecimento dos direitos no âmbito escolar. O movimento tem por finalidade lutar com empenho pelo Plano Nacional de Educação (PNE), para que sejam implantadas políticas locais de educação bilíngue para surdos.

“O objetivo da escola bilíngue é preparar o aluno surdo para entrar na universidade. Para que isso aconteça, ele necessita saber fluentemente o português escrito para se adequar ao vestibular e às aulas”, argumenta a psicóloga Regina Maria de Souza, doutora em Linguística e docente na FE-Unicamp. Para ela, mesmo com o intérprete de libras, é preciso dar a chance ao aluno de dominar o português, sem que se perca sua identidade e singularidade linguística.

Mesa de abertura: da esquerda para a direita, Profa. Dra. Ana Luiza (representando o diretor da FE-Unicamp Prof. Dr.Luiz Carlos de Freitas; o reitor da Unicamp, Prof. Dr. José Tadeu Jorge; Profa. Dra. Regina de Souza / Crédito: Cintia Alves

O reitor da Unicamp, José Tadeu Jorge, reconheceu a fragilidade da universidade na contratação de intérpretes de libras, devido à atenção insuficiente dada à questão ao longo de sua existência, mas demonstrou estar aberto à discussão e a incorporar mudanças. “Vamos universalizar esse momento com a presença de intérpretes em todas as unidades e órgãos da Unicamp […] Creio que conseguiremos avançar com o passar do tempo”.

A preocupação com a questão de intérpretes e da acessibilidade nas universidades não se restringe ao estado de São Paulo. A professora Lodenir Becker Karnopp, doutora em Linguística e Letras, docente na Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFRGS), manifestou-se a favor deste evento que promove a visibilidade dos surdos na educação. Evidenciando o seu desejo em estender o Setembro Azul à UFRGS.

Apesar do engajamento acadêmico e da garantia de alguns direitos conquistados pelo movimento surdo, ainda se fazem necessárias discussões por meio de eventos como esse, para que minorias linguísticas, antes reprimidas, possam ter, de fato, o seu direito à cidadania garantido e respeitado.

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